Luiz Paulo Faccioli

O pêndulo da traição - Alberto Mussa

Luiz Paulo Faccioli


Veneza, 1236. Dom Giovanni, a mais alta autoridade eclesiástica local, comete a indiscrição de expor ao doge uma herética teoria que desenvolveu a partir de segredos ouvidos em sigilo de confissão: a alma teria um rosto, e nele as características essenciais e mais íntimas do indivíduo estariam estampadas de forma inequívoca — e obviamente não idêntica à sua imagem pública. O doge não se convence; o prelado insiste com exemplos reais e chega ao cúmulo de lhe propor que adivinhe ele mesmo o tal “rosto espiritual” de algumas figuras eminentes da sociedade veneziana. O doge, ainda incrédulo, tem afinal a idéia de promover um baile de máscaras — nada mais adequado àquele cenário — onde cada conviva seria caracterizado conforme o personagem que lhe seja atribuído por Dom Giovanni. Sem conhecer esse critério, os casais seriam apartados na chegada ao palácio ducal, fantasiados e embaralhados, e o jogo consistiria em fazer com que os pares tentem identificar-se reciprocamente apesar dos disfarces. Convicto de sua teoria, após a inconfidência Dom Giovanni intui que cada participante buscará o rosto espiritual da pessoa a quem ame de fato, simbolizado nas fantasias, e não daquela a quem esteja ligado pelo matrimônio, o que inevitavelmente fará revelar casos de adultério dos quais tem conhecimento.

Assim, antes que o baile aconteça ele tenta avisar aqueles a quem traiu indiretamente a confiança, antecipando-lhes como estarão fantasiados os respectivos amantes. A providência não impede que uma dama, devidamente alertada para o perigo que corre, arme um estratagema para encontrar-se com o amante no decorrer da festa, valendo-se do fato de saber de antemão os disfarces que ambos estarão usando. O doge, a todas essas, descobre que Dom Giovanni está manipulando o jogo e resolve trocar o destinatário previamente combinado de algumas das fantasias. Chega-se enfim ao mais curioso desta história: a dama consegue atrair para fora do salão a pessoa que ela supõe que seja o amante, declara sua paixão e planos de uma fuga, tira a própria máscara e atiça o homem com impressionante volúpia. Ele, sem mostrar o rosto, cede à lascívia da mulher e, com inusitada violência, tem com ela uma relação sexual. Em seguida, a estrangula. O assassino, descoberto na mesma noite, é ninguém menos do que o marido da vítima.

O relato acima traz um exemplo exótico de adultério: a mulher consuma a traição — e paga por ela com a vida — num ato onde o próprio marido é feito parceiro e sem que haja a participação física do amante. Mais do que uma rara e infeliz concorrência de fatores, a situação leva a pensar que um triângulo amoroso pode ter mais desdobramentos e sutilezas do que se imagina à primeira vista. E há quem acredite inclusive que ele esteja na base da sociedade humana, no sentido de que só há sexo onde haja primeiro um triângulo. Em outras palavras, o impulso sexual nada mais seria do que a tensão resultante de um movimento pendular entre o desejo de trair e o medo de ser traído, para o que necessariamente deverá existir um terceiro elemento, mesmo que ele esteja ausente, como no exemplo, mesmo que nem humano ele seja, como no caso da serpente do pecado original — outra metáfora possível do adultério.

O caso veneziano, por sua complexidade e extravagância, poderia servir de entrecho a um belo romance — a lembrança de Otelo chega a ser aqui inescapável —, mas ele é apenas um dentre os vários pequenos relatos de O movimento pendular, mais recente livro do carioca Alberto Mussa, a partir dos quais ele compõe um surpreendente tratado sobre os triângulos amorosos (donde saíram as premissas expostas no parágrafo anterior). Mesclando ficção e história, conto e ensaio, usando até mesmo símbolos gráficos da matemática para criar o que os editores classificam de “ciência ficcional” — uma espécie de inverso da ficção científica —, Mussa realiza uma proeza de rara dificuldade na literatura: trata-se de uma obra que desafia a classificação quanto ao gênero e é, ao mesmo tempo, exemplarmente bem-sucedida.

A edição da Record, em papel pólen 90g e com projeto gráfico de Regina Ferraz, traz uma capa de elegante simplicidade: preto e branco dividem o fundo de modo a formarem dois triângulos, tendo ao centro e sobre o lado comum a ambos o título em bordô com aplicação de verniz. O livro compõe-se de seis postulados e suas respectivas demonstrações, seguidos de apêndice e índice remissivo. Cinqüenta e sete notas de rodapé ajudam também na simulação do caráter “científico” da obra.

O adultério não é um tema novo. Ao contrário, os séculos nos ensinam que um bom triângulo nunca faz feio nas artes e, por isso mesmo, continua sendo um conflito dos mais nobres e atraentes da literatura. Os breves relatos que servem de ilustração aos seis postulados de O movimento pendular espelham bem essa perenidade: vão da pré-história ao século 20 com igual desenvoltura, mostrando que todas as situações são atualíssimas e perfeitamente intercambiáveis nos diferentes cenários. Original neste caso, sem nenhuma dúvida, é a abordagem.
O volume abre com uma advertência:

“Pode parecer que este livro é resultante de um encadeamento mais ou menos frouxo de histórias de adultério, colhidas ao acaso em diversas fontes. É uma ilusão: elas formam, na verdade, um sistema; e — lidas em seqüência — propõem uma teoria do triângulo amoroso.
Muitas foram vividas por mim e, excetuada uma única delas, são todas reais.”


Logo a seguir, o autor faz uma detalhada apresentação de sua proposta, começando por uma antítese:

“O livro que eu devia ter escrito talvez levasse o nome de História tipológica do triângulo amoroso. Pretendia ser um estudo abrangente do adultério, desde os casos clássicos, consagrados na literatura, aos de cunho mítico ou lendário, narrados por selvagens. Ainda que não fosse exaustivo, um tal catálogo me permitiria antecipar, depois, todas as situações triangulares teoricamente possíveis nas sociedades humanas.”

E conclui:

“Mas não foi esse exatamente o livro que escrevi.”

Pelo que se viu até agora, fica evidente a inclinação do autor na linha da ficção de Jorge Luis Borges — citado, inclusive, em mais de um momento no livro. Assim como o argentino, Mussa arma todo um universo imaginário e passa a tratá-lo como se absolutamente real ele fosse. Tal convicção permite que ele teorize sobre verdades inexistentes fora do plano meramente ficcional, resenhe obras que nunca foram escritas, cite autores de mentira, inter-relacione fatos históricos com o que é pura lenda.
Cria enfim o que poderíamos chamar, usando aqui uma expressão bem própria do nosso tempo, de “realidade virtual”, algo que extrapola um pouco o conceito mais ortodoxo de “ficção dentro da ficção”. Esse exercício de metalinguagem exige fôlego mas, acima de tudo, um arcabouço lógico dos mais sofisticados para que a abstração ganhe sentido e não desabe ao dobrar a primeira esquina. Mussa revela um poder de organização mental privilegiado — o que está em óbvia sintonia com sua formação acadêmica em matemática — para levar a bom termo seu objetivo. E mostra segurança ao brincar com o leitor no instante em que o incita a desvendar qual das histórias é a única falsa.

Outro aspecto que aproxima a prosa de Mussa da de Borges é a racionalidade do discurso. A escrita é destituída de qualquer traço de emoção: apesar de elegante, ela também é fria, direta, econômica. E extremamente lógica. A concisão exige o máximo de esforço do leitor para que a compreensão não saia prejudicada. E vale aqui lembrar que O movimento pendular não é uma peça de ficção convencional, mas o simulacro bem-realizado de uma não-ficção de cunho científico, com todas as dificuldades de leitura inerentes a essa condição — não se pode exigir dela, naturalmente, a mesma fluidez que se esperaria de um romance.

O humor se manifesta nas várias referências de faz-de-conta, que avançam num crescendo rumo ao absurdo e cujo clímax se dê talvez quando Mané Garrincha aparece numa estatística formidável: metade da população atual sueca seria descendente das pernas tortas de nosso anjo, dado que traz implícita uma brincadeira relativa à sua maior fama fora do gramado.

Mas não se pense que tais laivos de galhofa comprometem de alguma forma a densidade do texto. Ao contrário, o humor é item sempre indissociável da boa literatura, e Mussa demonstra ter bem clara esta noção. Por trás da bizarrice, há um mundo de possibilidades muito sérias e que instigam o leitor a refletir. De resto, a concepção literária é ao mesmo tempo madura e arrojada, virtude que eleva Mussa a um patamar privilegiadíssimo: na revista francesa Europe, logo após a grande repercussão que teve seu terceiro livro, O enigma de Qaf, de 2004, ele figurou entre os cinco autores mais representativos da prosa brasileira atual.

E, do lado de cá, pode-se acrescentar que, até onde a vista alcança, não existe hoje no cenário nacional outra ficção como a dele.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de janeiro/2007


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