Luiz Paulo Faccioli

Sobre perguntas e respostas - Moacyr Scliar

Luiz Paulo Faccioli


“Tendo Jesus entrado no Templo, expulsou a todos os que ali vendiam e compravam; também derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes: Está escrito: a minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a transformais em covil de ladrões.”

A pequena passagem do Evangelho segundo Mateus — que aparece também em Marcos e Lucas em proporções similares — tem um significado claro e inequívoco mesmo a quem não professe uma religião cristã ou tenha familiaridade com suas doutrinas. Entretanto, é uma das que mais têm freqüentado o imaginário ocidental ao longo dos anos por conta de um detalhe singular: a figura do Cristo irado, lançando-se contra os vendilhões do Templo em Jerusalém e suas heréticas práticas comerciais, não condiz com a do pregador da paz acima de tudo que ensinava aos discípulos o “dar a outra face” em contraposição ao ancestral preceito judaico do “olho por olho, dente por dente”. A ira divina, tão assídua no Velho Testamento, manifesta-se através do Filho, às vésperas da Paixão, nesse inusitado episódio dos Evangelhos que o teatro, o cinema e a televisão cuidaram de retratar com as cores todas que faltam no texto bíblico.

Nas mãos de um exímio contador de histórias, o breve relato serve agora de argumento a uma nova história, e ele vai fazê-lo crescer e se multiplicar (não apenas no plano metafórico, como se verá adiante) numa obra literária de inteligente urdidura:

“Nunca pensei em me tornar vendilhão do Templo, dizia ele, alto e bom som, aos que quisessem ouvir. E os que queriam ouvir (nem tantos, mas nem tão poucos: algum sucesso alcançara, em termos de vendas e de ouvintes) não tinham razão nenhuma para duvidar de suas palavras.
Nascido e criado no campo, estava destinado a ser um agricultor — como o pai e o avô. Como eles, trabalharia a sáfara terra de uma pequena propriedade. Como eles, gastaria a vida em dura rotina: acordar, sondar os céus (o que trariam as nuvens que se acumulavam no horizonte, a chuva tão esperada ou o maldito granizo que destruiria a plantação?), ir para o campo, arar, semear, colher. Como eles, teria poucas alegrias; como eles, morreria cedo, pedindo aos filhos, no leito de morte, que continuassem o seu trabalho. E isso, para uma pessoa de alta linhagem, para um descendente do patriarca Judá, era uma humilhação. Um sofrimento.”


Assim começa Os vendilhões do Templo, mais novo romance do porto-alegrense Moacyr Scliar num conjunto que atinge a impressionante cifra de mais de setenta títulos publicados — nascido em 1937, o autor já supera em livros os anos de sua idade. Lançado pela Companhia das Letras, há uma curiosidade envolvendo a capa assinada por Victor Burton: O pesador de ouro, pintura do século 16 do flamengo Quentin Metsys que faz parte do acervo do Louvre e cuja metade superior está parcialmente reproduzida na capa de Na noite do ventre, o diamante — romance anterior publicado pela Editora Objetiva em 2005 —, tem aqui sua outra metade usada como fundo; dessa forma, uma visão mais completa do quadro aparece quando os dois volumes são postos lado a lado (estranhamente, não foi dado o crédito devido à obra na ficha técnica, que peca também por não mencionar o fato nem esclarecer seu possível significado).

Já no parágrafo inicial, torna-se claro o viés escolhido por Scliar para contar à sua maneira a célebre passagem da purificação do Templo, da qual o exclusivíssimo protagonista é testemunha e vítima, e que vai dominar a maior — e melhor — das três partes da obra. Nessa primeira fase — que, a exemplo das outras duas, funciona perfeitamente bem como um romance autônomo e ocupa metade do volume —, Scliar diverte-se fazendo o que de melhor sabe fazer: conta sua história com graça e competência, de um jeito simples, muito fluido, valendo-se de eventuais desvios na hora exata, na medida certa, sem nunca perder o fio da meada, a despeito da complexidade por onde tenha se enveredado a trama ou os devaneios do personagem. A impressão que se tem é que autor conhecia a história nos mínimos detalhes antes de começar a narrá-la, e o ato de escrever significou tão-somente um resgate meticuloso do que já estava havia muito consolidado em sua memória. A chave do segredo também é de tocante simplicidade: sabendo de antemão exatamente aonde quer chegar, ele vai pelo caminho que quiser sem nunca se perder. E sem impor nenhum sobressalto ao leitor.

Combinando o inigualável humor judaico, do qual Scliar é o mais antigo e bem-sucedido representante nas letras nacionais, com um caráter fabular calcado em símbolos também relativos ao judaísmo e outros não restritos a ele, o vendilhão do Templo — assim devidamente personalizado — é um sofrido campônio que deixa sua terra natal para tentar uma vida melhor em Jerusalém. Vende a propriedade por um preço aviltante, paga suas dívidas e muda-se com a família e os trocados que lhe sobraram para a cidade grande e promissora. Um homem honesto e trabalhador cuja especialidade profissional não interessa aos empregadores citadinos. Já às raias do desespero, recebe uma proposta de negócio de um antigo vizinho que migrara em idênticas condições mas conseguira fortuna vendendo pombos e fazendo câmbio de moedas estrangeiras aos peregrinos do Templo. Primeiro hesitante em aceitá-la, depois atrapalhado com as exigências do ofício, ele acaba tomando gosto por vender, prospera como negociante, sofre tropeços e já vem merecendo o respeito de seus pares quando o Mestre invade o Templo e joga ao chão suas moedas, danificando sua mesa de trabalho. Ao ódio contra o autor do prejuízo e as ofensas proferidas por Ele, junta-se a incapacidade do comerciante em fazer valer seus direitos e cobrar a devida indenização. E de entender o que tinha acontecido. Descontando na família suas frustrações, o relacionamento sempre muito difícil com o filho mais velho leva-o a finalmente expulsá-lo de casa, e o rapaz acaba se envolvendo com o crime. Para completar, o filho caçula e preferido foge de casa para — ironia das ironias — seguir o Mestre: na ótica do pobre vendilhão, o grande responsável por toda sua tragédia pessoal.

O resumo sugere símbolos e analogias interessantes. O primeiro deles é o êxodo rural e seu óbvio parentesco com a realidade brasileira atual, mas que também traduz uma sutileza: o gosto pela atividade mercantil, sempre tão intrinsecamente associado ao povo judeu, não é tão primevo quanto parece — com a civilização judaica vivendo àquela época seu quarto milênio, nosso vendilhão custa a abandonar a atividade agrícola, há séculos legada de pai para filho em sua família, e sofre para aprender a arte do ofício de vendedor. Um dos momentos mais divertidos é quando ele, já plenamente à vontade no papel de comerciante, passa a ter uma visão empresarial de seu negócio, sonhando inovações risíveis mas dentro da lógica irretocável de quem está sempre farejando possibilidades de negócio, clientela e, sobretudo, lucro. Nesse exercício, alguém que sempre observou princípios morais rígidos torna-se pragmático e flexível a ponto de considerar a corrupção miúda — uma pequena propina aqui, um superfaturamentozinho à-toa acolá — uma prática aceitável e até salutar ao aquecimento do mercado. (Onde mesmo se tem visto algo parecido ultimamente?) Também o conflito de gerações reflete, sem tirar nem pôr, o que ocorre na sociedade contemporânea, e a família em crise é seu emblema.

Na segunda parte, a narrativa faz um salto de mil e seiscentos anos, atravessa o oceano e vem dar com os costados no Brasil colonial do século 17. O padre carioca Nicolau Veiga, da Companhia de Jesus, designado para substituir um colega recém-falecido numa pequena missão jesuítica no Sul, sequer tem tempo de aprender os rudimentos do guarani e um ou outro hábito indígena quando, com a inesperada morte do padre Manuel — que ficara sozinho e a quem deveria em princípio apenas auxiliar antes de ter condições de substituir —, vê-se subitamente no papel de líder de uma comunidade com a qual não consegue se comunicar. Tal como acontece com o vendilhão do Templo, à beira do desespero surge por milagre Felipe, um forasteiro que conhece ambas as línguas e se oferece como intérprete. O problema é que Nicolau desconfia do sujeito desde a primeira hora, sentimento que vai recrudescendo no decorrer da trama e lhe dá um tom de mistério. A passagem bíblica aparece agora de forma periférica quando Nicolau se choca e não sabe como agir com um velho bugre que expõe suas toscas esculturas em madeira — dentre elas, sugestivos pombos — numa mesa à porta da capela do lugarejo. Mais uma vez, o caráter alegórico sugere ao leitor uma rica simbologia, e é inevitável que sejam traçadas várias conotações. O desfecho deixa muitos pontos em aberto que só vão ser esclarecidos inteiramente na derradeira parte do romance.

A história viaja de novo no tempo mas permanece no Brasil. Narrado agora em primeira pessoa, o final se passa em 1997 na hipotética cidade de São Nicolau do Oeste, erguida no local da antiga redução e cujo nome homenageia justamente seu pioneiro mais ilustre, nosso já conhecido padre Nicolau. O assessor de imprensa da administração municipal, onde a esquerda acaba de assumir, acompanha a grave mudança no cenário político, que atinge também seu status profissional, às voltas com o divórcio, as dívidas, a mãe doente, a bebida, e, ainda por cima, o assédio de um antigo colega de escola ressurgido em sua vida apenas com o objetivo de tentar conseguir através dele um favor especial da prefeitura. O reencontro também evoca ao narrador a lembrança de um episódio trágico acontecido no colégio e relacionado com a encenação da história dos vendilhões, fechando-se assim o círculo.

Scliar tem uma prosa de talhe convencional que dispensa acrobacias formais e tira sua força de uma elegante racionalidade. Isso não impede que, em algumas vezes, valha-se de um palavrão ou de uma expressão chula, cujo inusitado acaba deliciando o leitor. Uma solução instigante é o uso do hífen para sinalizar, ao fim de determinados parágrafos, o desvio no discurso: um prosaico ponto certamente daria conta do serviço, e o travessão seria a alternativa natural ou mais lógica de quem quisesse inovar nesse detalhe. Mas, por que um hífen?

Na hiperbólica construção de Os vendilhões do Templo há um sustentáculo maior que o episódio bíblico que lhe serve de mote e consegue abarcar até mesmo a mísera indagação deste resenhista: em 33 d.C., um vendilhão estupefato diante das vicissitudes que atravessava sem compreender concluía que “a vida é feita de muitas perguntas e de umas poucas respostas”. Scliar há muito já sabe que o bom escritor semeia sempre mais dúvidas do que pode apresentar de certezas.

De certo, certo mesmo, é que, contando suas histórias, Moacyr Scliar vai legando à literatura uma obra superior e de rara originalidade.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de junho/2006


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