Luiz Paulo Faccioli

Deus e o diabo na terra da não-ficção - T. Capote

Luiz Paulo Faccioli


Antes de rolarem os créditos finais do ótimo Capote, filme de Bennett Miller, surge na tela um breve resumo do que ainda irá acontecer na vida do protagonista, uma vez que o enredo abrange só uma parte da biografia e não termina com sua morte. A última frase surpreende o espectador ao afirmar que Truman Capote tornou-se o maior dos escritores norte-americanos. Esse tipo de afirmação costuma ser fruto do entusiasmo natural de quem vê e faz seu biografado maior talvez do que ele realmente seja — e quando se trata de Capote, sua notória imodéstia também poderia ter produzido um auto-elogio dessa magnitude —; em qualquer outro contexto, é sempre perigosa. Primeiro, porque a grandeza de um escritor pode ser medida, com resultados nem sempre coincidentes, em mais de um aspecto, alguns objetivos, como a popularidade, as cifras de venda e a quantidade de títulos publicados, e outros que têm uma boa carga de subjetividade, como a originalidade e o quanto a obra influencia a produção alheia e os próprios rumos da literatura. Além disso, Capote disputaria a liderança com pesos pesados como Ernest Hemingway, William Faulkner, Edgar Allan Poe, Eugene O’Neill, T. S. Eliot, Henry Miller e outros, cada um com sua contribuição fundamental no processo que levou a literatura feita nos Estados Unidos, especialmente a do século 20, a se consolidar como uma das mais expressivas no cenário universal.

Descontado qualquer exagero, Truman Capote perfila-se de fato entre os mais notáveis escritores americanos. Versátil, experimentou diversos gêneros que incluem contos, peças de teatro, roteiros de filmes, adaptações para a televisão; conheceu o sucesso já no primeiro romance, Other Voices, Other Rooms, de 1948, aos 24 anos; freqüentou as badaladíssimas rodas nova-iorquinas numa época fulgurante, convivendo com intelectuais, artistas de cinema e gente poderosa, e agitando as festas com sua língua ferina. Por outro lado, foi um dos pioneiros do chamado “jornalismo literário”, assinando uma obra-prima no gênero, A sangue frio, de 1966, cuja execução serviu de argumento ao filme de Miller. O público leitor brasileiro deve a Companhia da Letras — e um pouco também ao sucesso de Capote — o resgate de uma dívida antiga. Por muito tempo, a única obra do escritor a ganhar edição nacional havia sido Os cães ladram, coletânea de contos publicada pela Bertrand Brasil em 1977 e que se encontra fora de catálogo. Em 2003, a Companhia lançou finalmente o A sangue frio que, se não teve à época a merecida repercussão, por conta do sucesso do filme brilha agora nas listas dos mais vendidos. No final do ano passado, a editora paulista publicou Bonequinha de luxo e, no último fevereiro, Música para camaleões. Outros títulos serão por certo bem-vindos, mas a tríade já concentra o essencial da obra de Truman Capote, além de observar uma seqüência emblemática e cuja escolha talvez não tenha sido ao acaso.

A sangue frio é unanimemente considerada a obra-prima de Capote. A história já é conhecida, o livro não é objeto desta resenha, mas torna-se inevitável a referência por ser ele um divisor de águas, a meio caminho entre os dois outros. Diz o autor: “eu queria produzir um romance jornalístico, uma obra de grande porte que tivesse a credibilidade do fato, a instantaneidade do cinema, a profundidade e a liberdade da prosa, e a precisão da poesia”. Com este objetivo em mente, Capote farejou o fato jornalístico no brutal assassinato de uma família no Kansas quando os criminosos sequer haviam sido identificados, envolveu-se com um deles tão logo foram presos e nem vacilou ao lançar mão de expedientes eticamente nebulosos para arrancar do assassino o motivo do crime, sempre fiel a um preceito que parodia o dito popular: perder o amigo, mas nunca uma boa história.

Bonequinha de luxo, novela de 1958, foi lançada um ano antes de Capote “encontrar” o argumento de A sangue frio; comparados, um é quase o contraponto do outro. Com Bonequinha..., na visão do próprio Capote, encerra-se uma fase de dez anos que começou logo depois do sucesso de Other Voices... e da qual também fazem parte os três contos que acompanham a novela na edição brasileira. O título original, Breakfast at Tiffany’s, mereceria uma tradução mais fidedigna, mas a opção levou em conta um detalhe importante: o grande público já está familiarizado com o nome que batizou no Brasil o filme de Blake Edwards, de 1961, e que imortalizou a personagem na célebre atuação de Audrey Hepburn. A história de Holliday Golightly, jovem que troca uma vida difícil e sem graça no interior pela agitada Nova Iorque dos anos da Segunda Guerra e ali sobrevive como garota de programa, poderia resultar num grande clichê não fosse Capote um mestre em lidar com a ambigüidade. Tudo é sempre mais complexo — às vezes bem diferente — do que aparenta ser. Holly é um papel criado pela protagonista para esconder uma personalidade real e manter bem guardados os segredos de uma vida pregressa. No leitor, as atitudes algo desvairadas da ninfa começam provocando estranhezas sutis até trazerem à luz uma realidade diversa daquela que se vislumbrava no início. O caráter ambíguo da personagem é de certa forma um retrato fiel da cidade que ela escolheu para viver: todo glamour não passa de uma membrana tênue que de tempos em tempos se rompe aqui e acolá, expondo então pequenas porções do imenso tecido cruento que há por baixo e que ela luta para proteger com boas maneiras e um fingido sotaque francês. Situações corriqueiras acabam também servindo de metáfora ao conflito principal:

“Apanhou o gato e o ergueu até o ombro. Ele se encarapitou ali com o equilíbrio de um pássaro, emaranhando as patas nos cabelos dela como se quisesse fazer crochê; apesar da gracinha era um gato sombrio, com cara de pirata sanguinário; um dos olhos era viscoso e fosco, o outro luzia de perfídia.”

Os editores apresentam o livro dizendo que Capote escreveu Bonequinha... “com mão levíssima”. A expressão não poderia ser mais feliz ao definir a delicadeza com que o narrador em primeira pessoa, um aspirante a escritor, retrata Holly, por quem é obviamente fascinado, e suas aventuras. Personagens exóticos gravitam em torno da jovem, o que reforça o tom burlesco.

Os três relatos breves que completam o volume, Uma casa de flores (1951), Um violão de diamante (1950) e Memória de Natal (1956), revelam um contista de rara destreza e aguda sensibilidade. Dessa união resulta um texto cristalino pontilhado de pequenas estranhezas, que vai enredando o leitor até o final surpreendente mas que não poderia ser nenhum outro — e esse aparente paradoxo talvez seja o segredo mais precioso. Dos três, o que mais se destaca é Memória de Natal, uma história de infância a um só tempo delicada e pungente, contada com aquela melancolia de quem revive na lembrança uma felicidade longínqua que logo se esboroa diante da constatação da irreversibilidade do tempo. Um fecho magistral para o livro e um nó na garganta do leitor.

Música para camaleões, de 1980, é a última obra de Truman Capote. Depois do sucesso de A sangue frio, ele tentou avançar no gênero literário que alegava ter fundado, o “romance de não-ficção”, com Súplicas atendidas, relato autobiográfico em tom ficcional de suas experiências nas altas rodas e que deixou inacabado. Música... tenta ousar ainda mais: são várias histórias verídicas, com personagens reais não protegidos pelo anonimato, todas testemunhadas e às vezes protagonizadas pelo autor. O que pode haver nelas de ficcional são a ótica pela qual Capote as percebe — não necessariamente coincidentes com a realidade, se vistas de outro ângulo — e o caminho escolhido para relatá-las. Resumido desta forma, o esforço parece menor do que de fato ele é. Não se duvida de um escritor quando ele garante ter se colocado por inteiro num texto de ficção, ou de ter chegado à ficção reorganizando situações vividas e personagens verídicos. Contudo, por mais que ele se exponha, sua intimidade e a de quem retrata seguem preservadas sob o manto da fantasia. Tirá-lo significa dar a cara a tapa, escancarar a própria intimidade e a de quem não autorizou o autor a fazê-lo, desnudar fraquezas e segredos, correndo ainda o risco de se perder a autocrítica e resvalar para o terreno da pieguice, do sentimentalismo e de outras tantas armadilhas do falar sobre si mesmo. Aos aspirantes a escritor que lutam para não se render às exigências intrínsecas de cada gênero, o exemplo de Capote é perfeito: ele exercitou e chegou à excelência em várias formas para só depois se atrever a mesclá-las numa nova concepção literária.
O volume se estrutura em quatro partes. O prefácio pode ser tomado como uma delas ao encerrar uma espécie de autobiografia artística de Capote, um inventário sucinto e rico de todas as fases, elencando suas idéias e como elas evoluíram ao longo do tempo. Por conseguinte, resume a própria visão do autor sobre a literatura:

“Então, um belo dia, comecei a escrever, sem saber que me acorrentara para o resto da vida a um amo nobre mas impiedoso. Deus, quando nos dá um talento, também nos entrega um chicote, a ser usado especialmente na autoflagelação.
Mas é claro que eu não sabia disso. Escrevia contos de aventura, de mistério policial, esquetes, histórias que ouvi de ex-escravos e veteranos da Guerra Civil. Era tudo muito divertido — num primeiro momento. Só parou de ter graça quando descobri a diferença entre escrever bem e escrever mal, e em seguida fiz uma descoberta ainda mais alarmante: havia uma diferença entre escrever muito bem e a verdadeira arte; sutil, mas devastadora. Daí em diante, o chicote não parou mais de descer!”


A segunda parte, Música para camaleões, reúne seis contos que nada devem ao encanto dos da “fase ficcional”. Ali estão a leveza, o estranhamento, a argúcia narrativa; a única diferença é o fato de agora as histórias serem reais. Segue-se uma novela policial, Caixões entalhados à mão, estruturada como o texto de teatro, o que na verdade sugere uma inversão das mais interessantes: os diálogos conduzem a história, enquanto à parte descritiva cabe o papel de ilustrá-la. Essa nova ordem volta a aparecer em todos os sete relatos da última parte, Retratos por conversação, título que já traz explícita a intenção, e têm seu melhor momento em Uma criança linda, quando Capote retrata a amiga Marilyn Monroe através da conversa que os dois protagonizam numa situação algo inusitada: o velório da atriz Constance Collier. Imaginar a diva loira trajando luto e de unhas roídas seria por si só uma diversão impagável, mas Capote vai sempre além do superficial e nos regala com um retrato muito mais singelo e comovente de Marilyn do que aquele eternizado em suas poses de celebridade.

Outro digno de nota, Turnos noturnos ou Como gêmeos siameses fazem sexo, encerra a série, o livro e também a obra publicada de Truman Capote e é um longo diálogo dele com ele mesmo numa noite insone, levando a ambigüidade ao paroxismo e terminando com uma simplicidade chocante:

“TC: Boa noite.
TC: Boa noite.
TC: Eu amo você.
TC: Eu amo você também.
TC: Acho bom. Porque, no fim das contas, só temos mesmo um ao outro.
A sós. Até o túmulo. E é esta a tragédia, não é?
TC: Você está esquecendo. Também temos a Deus.
TC: É. Temos a Deus.
TC: Zzzzzzzzzzzzzzzzzz.
TC: Zzzzzzzzzzzzzzzz.
TC e TC: Zzzzzzzzzzzzzzzzzzz”


Em outras mãos, a solução beiraria o ridículo. A diferença aqui foi Truman Capote ter levado uma vida para torná-la única e inimitável.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de abril/2006


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