Luiz Paulo Faccioli

Mescla rara - Antonio Fernando Borges

Luiz Paulo Faccioli


Brasileiros e argentinos adoram uma boa disputa. No mais popular dos assuntos, onde sempre estivemos irmanados pela mesma paixão visceral, volta e meia ressurge a velha e manjada questão sobre quem merece o título de maior entre os maiores, se o Atleta do Século Pelé ou o gordito Maradona (discussão obviamente proposta por algum hermano, pois do lado de cá a dúvida nunca existiu). Já na mais triste possível das competições, a resposta argentina aos vinte e um anos de ditadura militar no Brasil veio com um atraso de doze e um período bem mais curto, sete, embora muito mais sangrento: dez mil mortos nos porões do regime ou simplesmente jogados ao mar, uma truculência só comparável à dos nazistas. E por aí vai: samba ou tango, churrasco ou parrilla, São Paulo ou Buenos Aires, Rio de Janeiro ou Buenos Aires, chope ou cerveza. No quesito cultura, onde alguns indicadores nos envergonham — criou-se o mito de que atualmente há mais livrarias na capital argentina de três milhões de habitantes do que em todo o território brasileiro, que abriga um número sessenta vezes maior de pessoas —, há um páreo que é diversão pura: pelo nosso lado, corre o bruxo do Cosme Velho, Machado de Assis, considerado por folgada maioria o maior dentre os escritores brasileiros, enquanto pelo outro segue impávido El Brujo, Jorge Luis Borges, o maior dentre os argentinos, e ambos perfilados entre os gigantes da literatura universal de todos os tempos.

Embora sempre apareça alguém disposto a tentar, o exercício de comparar os dois mestres supremos não consegue ir muito além da retórica. Primeiro porque, salvo por uma facilidade didática, obras de tal grandeza costumam ser únicas e, por esta razão, praticamente incomparáveis. Além disso, sessenta anos separam estilos, linguagens, visões de mundo, personagens e geografias totalmente distintos. Algumas coincidências existem, sem dúvida, mas não são o bastante para que se possa com elas traçar algum paralelo mais consistente. Se para efeitos acadêmicos a tentativa de aproximar Machado e Borges redunda inevitavelmente inócua, há um território em que qualquer aventura, por mais absurda que seja, tem sempre chance de ser levada a cabo com êxito.

Em 1939, enquanto o Rio de Janeiro comemorava o centenário do nascimento de Machado de Assis, em Buenos Aires o quarentão Jorge Luis Borges enfrentava duas tragédias pessoais: a morte do pai, cuja cegueira fora decorrente da mesma doença que mais tarde também o acometeria, e um acidente que quase lhe tirou a vida e cujo relato aparece em seu conto preferido, O Sul.
Também já havia publicado uma dezena de livros, dividindo-se entre o ensaio e a poesia, mas ainda engatinhava como contista, sua contribuição mais vistosa à literatura — para Italo Calvino, a concisão e o fato de ainda assim estarem “repletos de idéias e surpresas” tornavam os contos de Borges “a última grande invenção de um gênero literário”. Anos mais tarde, foi encontrado entre os pertences de um morto o diário de uma viagem a Buenos Aires naquele famigerado 1939, com o exótico detalhe de que o dono do diário nunca estivera na capital argentina, e muito menos no período registrado, pois havia morrido alguns dias antes de empreender a suposta viagem. O morto se chamava Antonio Fernando Borges, avô homônimo do escritor que lança agora Memorial de Buenos Aires, encerrando uma trilogia iniciada em 1996 com os contos de Que fim levou Brodie?, seguidos do romance Braz, Quincas & Cia., de 2002.

A seqüência dos três títulos já indica as linhas gerais do projeto: no primeiro, a alusão a O informe de Brodie sugere uma revisita ao universo de Borges; no segundo, os nomes remetem a dois dos protagonistas da famosa trinca machadiana; o último leva agora à fase mais ambiciosa, justamente a que trata de aproximar os dois e fazer com que eles dialoguem. Como existe um gap temporal — o bruxo morreu quando o brujo recém tinha completado nove anos de vida, e não por mero acaso o título do novo livro une o do último de Machado, Memorial de Aires, com o do primeiro de Borges, Fervor de Buenos Aires —, a engenhosa solução foi criar um narrador que funciona como o alter ego do mestre fluminense. Esse, um professor e crítico literário obcecado por Machado de Assis, refere-se a ele como a Deus, com letra maiúscula e sem declinar Seu nome; sofre da mesma doença, a epilepsia; teme enlouquecer, como Quincas Borba; desconfia da fidelidade da esposa e da paternidade da filha, revivendo as antológicas aflições de Bentinho; além de ter várias outras coincidências com a vida e os personagens de Machado. A viagem a Buenos Aires é motivada pelo desaparecimento de um amigo de infância e na intenção de resgatá-lo. Na capital portenha, conhece Georgie, com quem faz amizade, e descobre mais tarde ser esse ninguém menos que o próprio Jorge Luis Borges, anônimo para ele por conta do diminutivo britânico (o apelido existiu de fato).

Em Buenos Aires, personagens reais e fictícios de Borges entram na história. Ali vão aparecer D. Leonor, a mãe opressora; Estela Canto, a primeira e grande paixão; Adolfo Bioy Casares, escritor e amigo, com quem ele inclusive divide a autoria de seis livros; Victoria Ocampo, fundadora da Revista Sur; Beatriz Viterbo e Carlos Daneri, personagens do conto O Aleph; Dom Isidro, detetive criado pela dupla Borges-Casares; El Inmortal, protagonista do conto de mesmo nome; e outros tantos. Mais vertiginoso que essa mescla de realidade e ficção é o desfile de situações insólitas (ou extravagantes, para usar um termo que Borges, aqui o Antonio Fernando, repete à exaustão no romance). O entrecho policial, algo que fascinava El Brujo mas nunca seduziu Machado, parte do desaparecimento do amigo de infância Procópio, passa pela falsificação dos originais de um livro, chega numa confraria de pessoas que sonham em viajar no tempo e culmina com a misteriosa morte de uma princesa russa. A questão da “relatividade do tempo”, por assim dizer, tema tão caro a Borges e a partir do qual ele criou algumas de suas obras-primas, é o fio condutor da história, costurando as pontas que vão ficando soltas pelo caminho à espera de explicação no plano estritamente racional — note-se que esta é justamente a base da literatura dita policial. Um último recurso auxilia (ou atrapalha, dependendo de como se vê) na lógica estrutural da obra: o narrador assume de saída que a estranheza toda pode muito bem ser fruto da própria sandice.

Ao lançar mão de tantos e tão sofisticados elementos, havendo entre eles mais disparidade que convergência, Borges (Antonio Fernando) correu sérios riscos. Um deles foi o de não conseguir uma unidade coerente ou convincente ao leitor. Depois, a abundância de referências intertextuais pode frustrar quem não esteja familiarizado com as obras referidas, e é sempre bom lembrar que o grande desafio de quem trabalha com metalinguagem é não permitir que o jogo de espelhos sugerido por ela tome as rédeas do discurso, deixando em segundo plano a história que se pretende contar e aberta a porta do pedantismo. Borges transpõe esses obstáculos todos com segurança, usando como ferramenta uma prosa elegante e bem construída:

“Meu pai, honrado e competente alfaiate, foi quem primeiro me despertou para a questão mais crucial do mundo: o valor misterioso do tempo. (...) Essa lembrança doce — mas sempre severa — não me remete a metáforas óbvias e a palavras vazias, como ‘trama do tempo’ ou ‘tecido da realidade’; também não se refere à lentidão, ou paciência, com que ambos (o alfaiate e o tempo) cumprem seus ofícios. Nada disso: vendo meu pai riscar e cortar panos finos, para afinal transformá-los em feitio, volume e elegância, comecei a aprender a essência da realidade (mesmo sem entender plenamente, na época): que o tempo é a substância de tudo — e por isso ele é irreversível e os fatos são irrevogáveis. Depois de cortado o pano, não há como resgatar sua inteireza sem lhe aplicar um remendo.”

Como se vê, o discurso tem um pé no reflexivo, o que de forma alguma inibe sua agilidade. Repleta de sobressaltos, lapsos de tempo e situações... extravagantes, a prosa muitas vezes imita propositadamente o estilo borgiano ao abordar o fantástico com a neutralidade própria do ensaio.

Apesar de ter ido muito além do esperado num projeto de tão difícil execução, um pequeno óbice Borges não conseguiu contornar: a obra será sempre mais saborosa ao leitor já íntimo dos dois escritores que a inspiram, e em literatura qualquer condicionante nunca é bem-vinda. Por outro lado, o neófito em uma ou ambas as obras certamente sentir-se-á estimulado a conhecê-las depois da leitura de Memorial de Buenos Aires, cujas entrelinhas guardam de fato uma belíssima história de amor: a do escritor por seus dois autores mais queridos.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de março/2006.


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