Luiz Paulo Faccioli

Escrito em voz alta - Marcelino Freire

Luiz Paulo Faccioli


Há quem se atreva, em sã consciência, a pôr em xeque a alfabetização de um idoso, questionando o alcance humano e social de uma iniciativa como essa? Há quem se aventure a desmerecer a tentativa de fazê-lo adquirir conhecimento e dignidade na etapa final da vida? Há, por fim, quem consiga desdenhar da exaltação de alguma conquista nesse sentido? Marcelino Freire assiste na televisão às lágrimas rolarem no rosto de uma anciã desdentada, quando a flagram na emoção de ter conseguido garatujar pela primeira vez o próprio nome, e se exaspera com a estultice propalada em horário nobre: se era assim tão importante que ela aprendesse a ler e escrever, tivessem-na ensinado antes; agora, o que ela mais precisa é de dentadura. Põe então na voz raiventa de uma personagem toda sua indignação contra aquilo que ele considera um fato a ser lastimado, e não aplaudido:

“Capim sabe ler? Escrever? Já viu cachorro letrado, científico? Já viu juízo de valor? Em quê? Não quero aprender, dispenso. (...)
Será que preciso mesmo garranchear meu nome? Desenhar só para a mocinha aí ficar contente? Dona professora, que valia tem meu nome numa folha de papel, me diga honestamente. Coisa mais sem vida é um nome assim, sem gente. Quem está atrás do nome não conta?”


O desabafo de Totonha, no conto de mesmo nome e que faz parte do recém-lançado Contos Negreiros, parte evidentemente de um ponto de vista invulgar, com o qual se concordará ou não, isso não importa, mas que leva sem dúvida a pensar. E desde que despontou na literatura no final dos anos 90, o irrequieto pernambucano de Sertânia, radicado há mais de uma década em São Paulo, não faz outra coisa senão usar seu talento de ficcionista justamente para provocar e desacomodar o leitor, fiel ao entendimento de que essa é a função primordial do escritor.

Depois das bem-sucedidas coletâneas de contos Angu de Sangue (2000) e BaléRalé (2003), Freire estréia agora em grande estilo na Editora Record. Com dois pré-lançamentos, em Porto Alegre e na Feira Literária Internacional de Parati, além do evento oficial em São Paulo, Contos Negreiros é, sob qualquer ângulo que se analise, uma obra instigante, bem ao gosto do caráter provocativo de seu autor. A começar que os negreiros vêm embalados numa capa branca — aliás, capa dura, luxo reservado a poucas edições nacionais e de certa forma destoante do mundo marginal retratado, esse que tampouco conhece a sofisticação de um miolo em papel off-white 90g/m2. A figura que a domina vem de uma fotografia do século 19: um negro nu, de costas na capa e de frente na contracapa, concepção algo inusitada. Além disso, as nádegas do homem estão pudicamente cobertas pelo título, enquanto a genitália fica protegida sob o prosaísmo do código de barras. Essa comunhão de exotismos, muito mais do que um exercício meramente jocoso, pode ser lida como ironia à sempre paradoxal sociedade em que se vive. Não que Freire tenha concebido esses detalhes todos com uma intenção estrita (junto com Silvana Zandomeni, ele também assina a criação da capa), mas eles refletem uma preocupação estética que vem se firmando a cada novo livro e agora se consolida na minúcia.

Contudo, é no texto que Freire extravasa toda sua inquietude. Ele propõe o conto mas prefere andar sempre na corda bamba, desafiando pelo caminho alguns dos preceitos mais caros ao gênero e à prosa em geral.

Contos Negreiros compõe-se de dezesseis narrativas curtas — algumas de pouco mais do que uma página — que ele chama de “cantos”. Eis aí um outro detalhe que não surgiu por acaso. Freire é assumidamente um esteta da palavra: o som ou a cadência de uma frase servem muitas vezes de ponto de partida de uma história. “Costurar os sons das narrativas”, na expressão cunhada por ele, é tão emblemático de seu processo criativo quanto o “escrevo em voz alta”, que remete à oralidade característica de seu discurso. Junte-se a isso um sotaque inegavelmente nordestino, baseado naquilo que ele próprio diz ser a expressão de uma gente que está sempre se lamuriando: uma ladainha interminável e que não raro emerge com brabeza. Às vezes a pontuação é dispensada, imitando um jorro irado, como ocorre em Trabalhadores do Brasil:

“Enquanto Olorum trabalha como cobrador de ônibus naquele transe infernal de trânsito Ossonhe sonha com um novo amor pra ganhar 1 passe ou 2 na praça turbulenta do Pelô fazer sexo oral anal seja lá com quem for tá me ouvindo bem?
Enquanto Rainha Quelé limpa fossa de banheiro Sambongo bungo na lama e isso parece que dá grana porque o povo se junta e aplaude Sambongo na merda pulando em cima da ponte tá me ouvindo bem?
Hein seu branco safado?”


Freire não vê problema algum no eco, considerado um vício por dez entre dez especialistas e do qual desde cedo o aspirante a prosista é ensinado a fugir. Ele sustenta que toda a prosa é necessariamente poética, o que o deixa livre para avançar perigosamente num caminho que sem dúvida se prestará a várias outras polêmicas, como em Caderno de turismo:

“Zé, essa é boa. O que danado a gente vai fazer em Lisboa? Bariloche e Shangri-lá? Traslados para lá. Para cá. Travessia de barco pelos Lagos Andinos? Nunca tinha ouvido falar em Viña del Mar. Valparaíso. A gente não devia sair do lugar.”

Observem-se o ritmo e a rima no trecho acima: a única diferença em relação à poesia é o fato de ele não estar estruturado em forma de verso. O andamento e o eco podem causar desconforto em quem se acostumou à prosa tradicional, pois não há como não percebê-los. Por outro lado, quem tenha o privilégio de pelo menos uma vez escutar o próprio autor recitando um de seus contos passará a lê-lo (ouvi-lo) num registro diferente. É óbvio que essa última observação não pode ser tomada como fator determinante de uma correta leitura. O que se pretende dizer é que se atente para aquilo que o autor propõe: um livro “escrito em voz alta” quer ser “ouvido”, e se for pela voz de quem o escreveu, tanto melhor.

Em se tratando de narrativas tão curtas, não era naturalmente de se esperar que os personagens fossem trabalhados em profundidade. O que mais se conhece deles é a voz, e a sensação que se tem a todo momento é que eles precisam gritar para ser ouvidos, gerando assim um inescapável tom de denúncia e também um dos poucos reparos a se fazer na obra. Ainda que o negreiro do título conduza o movimento central, em torno dele gravitam homens e mulheres que podem não ser necessariamente negros, mas igualmente extraídos da marginalidade: a meretriz (Vaniclélia), o assaltante (Esquece, Linha do tiro), a garota favelada que sonha em ser a Xuxa (Nossa rainha), o pobre-diabo que deseja vender o próprio rim (Nação Zumbi). Ao final, dois versos do Samba da Bênção de Vinícius de Moraes resumem de forma precisa a intenção: “E se hoje ele é branco na poesia / ele é negro demais no coração.” A temática homossexual, já explorada pelo autor nas obras anteriores, merece agora três contos: Coração, Meus amigos coloridos e Meu negro de estimação.

O livro termina com o belo Yamami, história protagonizada por um estrangeiro pedófilo. Enquanto este, de má vontade, vai respondendo ao colega sobre a viagem de turismo feita ao Brasil e revelando ter tido uma péssima impressão de nosso país, ele se recorda também das índias prostitutas em Manaus e da pequena Yamami, com quem se envolveu. O diálogo entremeado com um discurso em flashback de que se compõe a narrativa é uma grande metáfora: o estrangeiro diz ao mundo que ele despreza o Brasil, ao tempo em que sabe no íntimo que só aqui pode dar vazão a sua tara. E fica no ar a hipótese de que talvez nos despreze exatamente por que aqui pôde dar vazão a ela:

“Sempre gostei de crianças. Aqui é proibido. (...)
Você chega, estanca seu olhar em volta, seu olhar em cada buraco, estopa, saco. E vê no mercado. Um extenso mercado no centro da cidade. A puta que você vê tem onze anos. Ou menos. Parece. Não cresce. Vive seminua, sujinha e deliciosa, esperando a lotação da balsa. Há tucanos para vender. E corpos.”


No que fiz respeito à forma, esse é também o conto mais bem realizado de toda a coletânea, como a sugerir, no derradeiro momento, que Freire soube afinal resistir ao balanço da corda e terminar na segurança de um ponto firme, e que demonstra conhecer muito bem.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de julho/2005


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