Luiz Paulo Faccioli

A áspera melodia dos ausentes - Paulo Ribeiro

Luiz Paulo Faccioli


Quando Vitrola dos Ausentes foi lançado em 1993, o Prof. Luís Augusto Fischer prefaciou a novela de Paulo Ribeiro compondo uma bela metáfora. Primeiro, comparou a leitura de um livro a uma viagem de ônibus, onde o passageiro entra, se instala e em seguida passa a acompanhar o cenário que corre fora à medida que o veículo se movimenta. A leitura de Vitrola, que acaba de ganhar uma oportuna reedição, diferiria de uma viagem tradicional pelo único e inusitado fato de que nela o ônibus não saía do lugar. A comparação não poderia ser mais significativa, e não se está sugerindo que a obra seja destituída de ação; ao contrário, nela a vida não pára: é o ônibus que não sai do lugar, não faz mudar o cenário nem sua perspectiva para o passageiro. Mas o cenário existe, estático, enquanto os vários personagens entram e saem dele, dando ao leitor a sensação de contemplar uma tela que se movimenta.

A Vila dos Ausentes é um lugarejo pobre na geografia gaúcha, onde a vida se arrasta ao som de uma vitrola velha e fanhosa. Nesse ambiente muito mais rural do que urbano, tudo é antiquado, monótono, tristemente previsível, mas uma simples discussão sobre alfaces pode levar a um crime de morte. Não existe um grande conflito, uma questão filosófica de relevância, sequer um personagem extraordinário, e é dessa forma que eventos pequenos e muitas vezes insólitos ganham peso — no caso da querela das alfaces, quem morre é uma pobre vaca. O retrato dessa realidade miúda e interiorana resulta de um emaranhado de fragmentos de histórias menores que se entrelaçam e cabem sem aperto na perspectiva de uma janela de ônibus.

Vitrola é obra essencialmente “de linguagem”, e esta recria o linguajar típico do extremo nordeste do estado: a fala coloquial, de construção bastante primária, quase infantil, e que muitas vezes passa ao largo do verniz da boa gramática. A estrutura narrativa parte da simples reunião de enunciados avulsos e referentes a eventos que serão retomados adiante no texto através de novos enunciados avulsos, e é dessa forma aparentemente caótica que o discurso se organiza. Na realidade, essa definição pode bem ser compreendida como metáfora da vida na Vila dos Ausentes. Trata-se de uma gente de estreitos horizontes, cujas identidades e conflitos se confundem e se mesclam para formar uma teia desgraciosa: o conjunto de “ausentes” com o qual Paulo Ribeiro constrói seu universo peculiar.

O elenco de personagens forma um espetáculo à parte, mais pelos nomes exóticos com que eles foram batizados do que propriamente por sua caracterização ou aprofundamento psicológico. Também a opção de deixá-los rasos é claro reflexo da concepção da novela. O autor devota a todos eles um olhar afetuoso, desprovido de crítica ou comiseração, lúcido e justo na medida do humano.

Não se espere encontrar nada de convencional em suas poucas páginas, mas o som rascante e melancólico de Vitrola dos Ausentes faz despertar na memória a lembrança nostálgica de um mundo e um tempo que já se imaginava perdidos para sempre.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado no caderno Cultura, Zero Hora, 07/05/2005

 

 

 

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