Minha impressão foi bastante boa no geral e em alguns momentos entusiasmada, para um volume de estréia. Seu senso de forma e estrutura, sua capacidade em desenvolver com segurança a narrativa são de gente já madura no métier. Agrada-me também que você tenha uma aguda observação da realidade, o que, para meu gosto, desloca o interesse da trama, elemento tradicionalmente forte do conto, para os detalhes, as nuances, ou melhor, a trama se torna exatamente essa disputa de sutilezas entre os personagens, como encontramos em O Jogo das Duplas. Sua notação precisa do ambiente faz quase toda a substância e toda a solidão da mulher insone em A fotografia. Quando se trata de criar um personagem que abarque todo o conto, O piano com sua matriarca surge então como um dos melhores, senão o melhor, da coletânea. Se a presença constante da música dá uma certa leveza às cenas, sua ironia se encarrega de levar o texto para longe do estetismo, dos valores e expectativas convencionais, preenchendo pela inteligência o desejo, nos leitores, de algo mais que a "fatia" de vida oferecida pelo conto.

Sua capacidade de transformar um detalhe, uma trivialidade cotidiana e de recosturar esse cotidiano nas suas minúcias fica patente em Ponto de vista, onde quase tudo da personagem, da roupa ao hálito, entra em ação. Você não perde nada dos sarcasmos com que a vida nos brinda para corrigir a nossa presunção ou para dar-lhe razão, quando então ela muda de nome, vira tino, astúcia, quase saber viver. Suas histórias manejam bem esta incessante dificuldade de ser, esta precariedade diante do outro, marcadas por pequenas incisões na alma ou crispações no ego cuja percepção fazem para mim grande parte do prazer de ler. Acho porém que você precisa sair dos limites do conto curto, ampliar texto e enredo. Suas narrativas se passam a maioria à noite, em espaços fechados, com uma socialidade emperrada. Sinto falta de ar, luz, cor, odores, tato, sexo e um pouco de intrepidez imaginativa. Arriscando-me a dizer besteira, há qualquer coisa de uterino (palavra forte demais), de maternalmente protegido nos contos que, penso eu, o tempo e o escrever vão desabrir. (...)

Seu texto é seguro, preciso, expressivo com parcimônia, e pelo gosto no manejo das palavras está um pouco acima da norma atual, que exige despojamento e coloquialismo. O efeito geral é a sobriedade com certo brio, indicando um ponto acima do simples mas dificílimo domínio da linguagem literária. O risco do texto apenas sóbrio é o enfado mortal, mas um autor com substância humana como você está fora disso.

Jair Ferreira dos Santos
trecho de mensagem eletrônica de 14/11/2003

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