Entre as qualidades que me chamaram atenção em Elepê, destaco a elegância do ritmo, a sutileza das emoções, a erudição que se coloca a serviço da história a ser contada e nunca é gratuita. Também me encantei com certos momentos que seriam mágicos por si só, mas ganham ainda mais em profundidade se considerarmos sua relação com o todo - exemplos: "...jovens que passam na rua e se divertem despertando os homens e seus medos"; "... a proteção fria das gentilezas pré-fabricadas"; "...o perfume másculo e cítrico que insiste em desafiar a autoridade da porta, fechada em sua guarda"; "...a casa está desmontada, mas as Intimidades todas a salvo"; "encabula-se com a mirada insistente da filha do verdureiro, menina ainda mas de atitudes curiosas".

Não facilitas as coisas para os teus leitores, o que considero um sinal de respeito: me senti desafiada a explorar, com prazer, as entrelinhas dos contos - muitas vezes voltando a certos trechos e descobrindo novos significados após conhecer os finais. O Assis destacou que nem parece obra de estreante, e uma das qualidades que reforça essa afirmação é a tua empatia com personagens tão distintos entre si. As personagens femininas, principalmente, evidenciam a maturidade de um escritor que consegue desviar da armadilha do narcisismo, da qual não escapam nem mesmo alguns autores que já estão longe do primeiro livro...

Gostei mais do Lado A, mas essa é uma análise bastante subjetiva: racionalmente, considero que o livro todo mantém um nível elevado; só que a primeira parte falou com a mesma intensidade à razão e à emoção. (...) Acertaste na escolha de O piano na primeira faixa. Impressiona ainda tudo que consegues expressar nas poucas páginas de A fotografia (esse conto chega a doer), Lápis de cor e Intimidade. No Lado B, gostei dos toques metalingüísticos. Contos preferidos: Ponto de vista e Déjà vu.

Laís Chaffe
em mensagem eletrônica de 26/02/2004

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