Doméstico

Marcela entra e me perturba a leitura com seu andar silencioso. Talvez se os saltos martelassem o parquê num toque-toque irritante, ou a porta abrisse com um ranger agudo, ou algum vidro se espatifasse num desgoverno do movimento gracioso, felino, eu sequer levantaria os olhos. Nada me faz desviar a atenção de uma boa história, nada, exceto este passo morno, pleno de malícia e falto de sinceridade. Busca um livro na estante, a fingida, ela que nunca se interessou por uma única página da minha biblioteca. Veio para me provocar, eu sei. O que é muito pior, hoje aceito a provocação. Perde-se a história que eu lia há pouco, tão pouco, começa uma outra, antiga, só minha. Ou dela também, quem sabe, pois ainda não fizemos nenhum acordo. Tento manter os olhos desviados daquilo que eu já prevejo, grudando-os no livro, mas eles já não encontram nas linhas o que antes era o fio de uma trama envolvente. Eles adivinham uma transparência na folha e através dela espreitam Marcela em seu pomposo fingimento. Demora-se contando os capítulos, a falsa, pois não acredito que esteja de verdade lendo alguma coisa. Sinto um arrepio imaginando o discreto farfalhar das meias de náilon ao se roçarem, o pé já descalço acarinhando as costas da outra perna, num sobe-e-desce lento e ritmado que o leva cada vez mais longe, em direção à polpa torneada e macia da coxa. Marcela tem coxas perfeitas. Decido que hoje irei finalmente mordê-las, depois dos meses todos em que sofro por desejá-lo. Devo então encontrar um jeito de me acercar, com toda a discrição necessária para que ela não se veja forçada a me repelir antes da hora. Primeiro, ela deve sentir minha respiração quente e nervosa quando eu chegar próximo ao alvo. Mas não se volverá. Conseguirá manter-se calma e disfarçada até o começo do mordiscar suave e astuto que irá por fim desmascará-la. Ela usará então dos seus ardis mais poderosos ao simular espanto e recusa, eu tratarei de responder com determinação e volúpia. Quando estiver bem confiante da sua competência como atriz, cravo-lhe os dentes e machuco a alvura perfumada de sua pele com meu selo real e plenipotenciário. O sangue ameaçará romper o frágil invólucro do corpo pela marca recém-cunhada, pulsante ainda, e ela não conterá lágrimas de farta humilhação. Seguirei firme o suficiente para não fraquejar e desistir, o que acabaria me arrasando para sempre. Ao contrário, continuarei minha desforra abraçando-a por trás e soprando-lhe desculpas ouvido adentro. Minha língua aproveitará a ternura do momento para deslizar com sofreguidão pelo contorno da orelha, avançando pela nuca salgada de choro. Percebo agora o enrijecer involuntário do meu corpo ao imaginar o quão reteso ficará o dela com minha perícia em tocá-lo. Ela sofrerá, ou fingirá sofrer, quando se descobrir traída por mim e por seu próprio desejo. Estarei ocupado em desfrutá-lo, não poderei socorrê-la, como fiz em tantas outras vezes. Sempre a protegi, talvez com zelo excessivo, admito, de mim e principalmente dos outros. E ela me agradece agora com o descaramento de me tentar, usando de toda a lascívia possível a uma fêmea jovem, deslumbrante, talvez intocada. Hoje ela me paga. Não se mexe impunemente com um homem íntegro, que ainda há pouco desejava apenas continuar mergulhado numa ficção indolor, diferente desta realidade perversa e voluntariosa. Marcela segue folheando o livro com a destreza de quem tem larga experiência no ofício. Permanece de pé, a cínica, pois sabe que desta forma não posso deixar de observá-la. Não sei bem porque ela se veste sempre com este apuro, tendo uma vida social menos que medíocre. Talvez seja uma herança da mãe, que nunca fez concessões à elegância, às meias de seda, aos sapatos de salto, mesmo quando gastava as tardes lendo ou tricotando, enclausurada pela doença. Contudo, estou inclinado a pensar que isso também faz parte da encenação. Desconheço de que modo Marcela descobriu meu fetiche pelas meias de náilon e passou a usá-las sempre, todos os dias, desafiando os hábitos atuais de uma jovem de vinte e poucos anos e me remetendo ao tempo em que as pernas eram melhor vestidas. Sou mais velho, é claro, pouco observador da moda e dos modismos, mas foi inevitável perceber que o náilon escasseou, enquanto me sobrava na construção da fantasia. Hoje estou preparado a realizá-la toda, sem falsos pudores ou melindres, que Marcela não é digna de qualquer delicadeza. É antes um poço de sem-vergonhice represada. Ela acaricia a nuca, prevendo que daqui a pouco estarei justo a lambê-la. Aspirarei a solitária gota de perfume ali derramada com a especial intenção de me seduzir, enquanto o meu braço enlaçado em seu colo provará a rigidez dos seios pequenos e altivos. A outra mão estará ocupada apalpando o náilon, delicioso contraste contra a maciez já aviltada por meus dentes afiados e famélicos. Terei ganas de usá-los novamente, agora para despir, não sem um breve requinte de selvageria, o falso bronzeado que as meias trazem às coxas. Mastigarei o náilon até o ponto de me arrepiar de uma forma insuportavelmente dolorida e que se sobreponha enfim ao mal-estar que sinto agora, excitação e medo e desejo e vergonha. E culpa. Culpo Marcela por me atiçar desta forma. Culpo a mim mesmo por me deixar servir inteiro numa bandeja de gula e gozo, viril, macho, malvado. E fraco. Tristemente fraco. Miseravelmente fraco. Marcela, à minha frente, exibe a fortaleza esculpida nas costas imponentes e seguras, firmes ao reter o prazer e controlar a expectativa. Não tenho mais como reagir. Não mais me controlo. Não posso. Não quero me controlar. Levanto-me tão presto que a tontura me faz fechar os olhos para retomar o equilíbrio instantaneamente perdido. Abro-os de novo e vejo que Marcela voltou-se para mim, assustada. Tem os olhos marejados, exatamente como os imaginei há pouco, as lágrimas fugindo a salgar-lhe o pescoço. É ela quem afinal se aproxima, a víbora, naquele andar sinuoso e calmo a romper minha estabilidade. "Hoje faz três anos" - ela dispara, numa desconcertante firmeza - "que morreu nossa mãe". Eu sei, respondo, enquanto vou desabando em seus braços, a soluçar feito criança magoada.

Luiz Paulo Faccioli

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