Marina Della Valle leu a coletânea de contos Trocando em miúdos, do gaúcho Luiz Paulo Faccioli. Nossos leitores já conhecem o trabalho, sempre elogiável, de Faccioli como crítico. Agora, com a leitura de Marina, poderão adentrar no universo ficcional de uma das melhores novíssimas vozes da literatura brasileira.


A palavra em compasso de urgência

“Trocando em miúdos”, segundo livro de contos de Luiz Paulo Faccioli, escapa das armadilhas do amor como tema capturando seus momentos mais sôfregos

Marina Della Valle

O amor é assunto traiçoeiro também na literatura, já que suas inesgotáveis possibilidades acarretam o mesmo tanto de possíveis armadilhas – lugar-comum, pieguice, emoção demais, falta dessa mesma emoção e por aí vai. Luiz Paulo Faccioli escapa delas todas ao capturar o que tantas facetas do tema têm em comum: a sofreguidão, a perda momentânea de amarras, o segundo de urgência que as une.

Trocando em miúdos (Editora Record) é o segundo livro de contos do autor gaúcho, também músico e compositor. Seu primeiro volume de contos, Elepê (WS Editor), foi publicado em 2000. Entre os dois Faccioli publicou um romance, Estudo das teclas pretas (Editora Record). Agora, nessa nova coletânea, reúne 15 contos inspirados livremente em canções de Chico Buarque, algumas indicadas nos próprios títulos, outras poucas com a devida identificação no final do livro – após o conto, portanto, aguçando o jogo de ecos.

E as canções de fato ecoam nesses contos curtos, alguns deles brevíssimos, explorando o máximo as possibilidades de uma tacada certeira. É inegável que o leitor que não é familiar – ou não aprecia – as músicas de Chico perde o jogo da memória afetiva, das conexões subliminares. Não que essa perda ameace a boa apreciação do livro. O jogo refinado de ecos e referências é mais como um bônus aos que já têm relações anteriores com as “canções-musa”; uma leitura a mais.

A essência reconhecível

O retrato de urgência aparece em variações curiosas – de deliciosos desvarios, como o da vizinha que expõe o frêmito do gozo aos passantes ou o da mãe apavorada ao se reconhecer na filha, até o sufoco da espera pelo amante, esteja ele para chegar pela primeira vez ou adormecido ao lado, exausto da noite.

Artesão do conto curto, Faccioli, que também participou da antologia Os cem menores contos brasileiros do século (Ateliê Editora, eraOdito editOra, 2004) – além de Porto Alegre: curvas e prazeres (WS Editor), e 35 segredos para chegar a lugar algum (Editora Bertrand Brasil) – consegue manejar em poucas páginas o frágil timing do bom-humor, mesclando a memória e a voragem do presente – o dueto final entre os amantes de “Biscate” talvez seja o exemplo mais óbvio, mas esse humor por vezes ácido e negro permeia esses retratos montados com cheiros e texturas, suor, pele e cheiro de cachaça, por manias, pelo elemento que cede aos apelos.

Faccioli captura a essência reconhecível, por mais sutil que ela seja, por mais estranha que seja a experiência amorosa – a urgência que as trespassa e nos certa em cheio.

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