Trocando em Miúdos: contos de canções buarquianas

Michelle Ferret

“Elas sempre me vêem passar, eu nunca me detive em nenhuma. Trago-as nos olhos sem contudo vê-las, espelhadas nas minhas retinas qual letreiros luminosos que ali dentro não tem outro sentido além de ser pontos de luz e cores imprecisas”.  O início do conto “Um dia depois de outro dia” do livro “Trocando em miúdos” de Luiz Paulo Faccioli, esconde nas palavras o vão das cidades de Chico Buarque.

Inspirado no universo do compositor, Facciole escreveu quinze contos que remetem - às vezes diretamente outras não – em canções como “As Vitrines”, “Coração Suburbano”, “Biscate” e “Joana Francesa”. Em alguns contos como o citado no início da matéria dá até para ouvir a música com seus devidos arranjos embalando o conto. Outros, confusos, o leitor pode demorar para ouvir a melodia acesa de Chico.

Como o que esconde a Joana Francesa, quando o escritor abre com um amanhecer. “Difícil acreditar que seja mesmo incorruptível a mecânica precisa das horas quando ainda há pouco a noite recém começava, tão quente como agora chega ao fim. Lento, o ventilador do teto agita um ar pesado que pouco suaviza o mormaço(...)”.

Os contos são leves, mesmo quando os temas retratam o abandono, como o referente às Vitrines. Na literatura, um homem se encanta com uma menina prostituta que acende nele o desejo de se autodescobrir, desfazendo preconceitos e limites estabelecidos socialmente. O interessante da obra é esse desnovelo, o desfiar as linhas universais de Chico e transformá-las em novos destinos.

Nesse embarque e desembarque de vidas e histórias entrelaçadas, cabem temas humanos como paixão, traição, encanto, dor, desesperança e um infinito que só Chico saberia apontar.

No conto “Eu te amo”, o fim de um relacionamento é escrito de uma maneira sutil e doída, quando ele lembra da frieza da amada e de como se fervilhavam os encontros. Esse é um dos contos especiais do livro, por trazer engendrado à idéia de um fim, a desesperança de um Brasil em época de Ditadura Militar. “Ninguém nos apressou e não houve como respeitar a avareza daquele tempo contado”.

Para contextualizar, como escreveu o autor, “as quinze histórias que compõem a coletânia foram escritas entre setembro de 2005 e março de 2007, livremente inspiradas em canções de Chico Buarque, algumas delas em parceria com outros compositores. Não houve qualquer intenção de fidelidade”. E é essa liberdade que dá um caráter original ao livro, tornando-o acessível a qualquer hora do dia, da noite ou nas tardes quentes de insonia.

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