As teclas da ambigüidade

Luiz Antonio de Assis Brasil/ Escritor

Em 2000, ao sair o primeiro livro de Luiz Paulo Faccioli, Elepê, escrevi que o futuro do autor era uma incógnita, como o são todos os futuros. Para além do evidente truísmo, essa minha sensação trazia implícita a idéia de que muitos autores, e milhares, não sobrevivem ao primeiro livro - como tinham apenas uma coisa a dizer, nada mais disseram.

Não é o caso deste segundo livro, a novela Estudo das Teclas Pretas, que vem evidenciar duas realidades - que Luiz Paulo Faccioli ainda tinha muito a dizer, e que o diz está melhor ainda. Sua frase está mais livre e colorida, dando-lhe recursos tão inesperados como eficientes. A destacar, ademais, que o autor publica pela Record, que nos últimos três anos tem seduzido quase uma dúzia de escritores do Rio Grande do Sul, seja para reedições, seja para publicações inéditas.

A recorrência óbvia deste volume é música, que age como um leitmotiv wagneriano a percorrer todas as páginas. Como se sabe, nas teclas pretas de um teclado estão as notas alteradas, intermediárias, isto é, os sustenidos e os bemóis. Temos, então, algo a indicar que a proposta é de uma história não-trivial, crepuscular e cambiante, que não passa pela límpida e luminosa sonoridade das teclas brancas.

E o que conta, essa história não-trivial? Aparentemente algo simples - um jovem pianista, filho de uma grande família da região colonial italiana, Paulo Amaro (atenção - o nome não é por acaso) vem estudar música no Instituto de Artes de Porto Alegre. Ali toma contato com uma figura excepcional, o maestro judeu-alemão Leopold Kaufman, que dirige a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e, ao mesmo tempo, dá aulas no Instituto. Tudo adquire uma coloração bemolizada quando o protagonista - que ora fala na terceira, ora na primeira pessoa -, depois de experiências sentimentais frustrantes e ambíguas, apaixona-se por Lara, violinista, mais velha e com importante currículo europeu. Estabelece-se um triângulo de timbres exasperados, sustenidos, em que no outro vértice está o maestro, com sua arrogância e caráter imprevisível. Esta é a trama, por si suficiente para conduzir o leitor a um epílogo que possui ressonância e dá uma (boa) idéia de não-fim. Mas o livro é algo mais do que isso, pois circula pelo cenário cultural e emocional da exuberante Porto Alegre das décadas de 70 e 80, trazendo-nos espaços e modas que já fazem parte do inventário coletivo da cidade.

Trata-se de uma novela breve e delicada, recuperando emoções masculinas não-ortodoxas, e por si só é uma novidade num Estado que pratica, via de regra, uma literatura fortemente masculinizada.

O autor constrói seu texto com regularidade, força e precisão, jogando habilmente com os subentendidos. Esses são alguns seus méritos, mas por si só não se apresentam como suficientes. É preciso que esse arsenal técnico venha recheado de sentimento humano, que vibre os nervos e o sangue. E essa bateria de recursos estéticos, mesclados a uma genuína compaixão, está presente em Estudo das Teclas Pretas, uma novela que irá surpreender o leitor. Por tudo o que diz e fundamentalmente pelo que não chega a ponto de dizer, é, mesmo, um livro de sustenidos e bemóis.

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