O estudo de uma personalidade sombria

Tailor Diniz

O primeiro elogio a se fazer a Estudo das Teclas Pretas, de Luiz Paulo Faccioli, é a autenticidade que perpassa o texto. Faccioli é músico e compositor, fato que torna convincente seu relato sobre a vida do personagem Paulo Amaro, em especial na sua relação com o instrumento musical, com o maestro que quer fazer dele um sucessor, com o mundo da música erudita, tanto no que tange ao repertório quanto às técnicas de interpretação, intimidade com a partitura e relações pessoais. Envolto nesse universo de aparente glamour, tem seu perfil construído, passo a passo, desde o nascimento, passando pelo trauma de perder a mãe ainda muito cedo e de precisar ser criado pela avó, até a convivência com um pai que só não fora omisso na hora de se opor à opção do filho pela música.

É a exposição dosada desses ingredientes que anuncia o perfil psicológico do personagem, cujas ações e comportamento, conforme se dispõe o autor, não chegam a surpreender. Sua insegurança social, profissional e afetiva vão se confirmando aos poucos, como se seguissem um destino previamente anunciado. Não bastasse ser inseguro quanto aos rumos a serem tomados na profissão escolhida, Paulo Amaro descobre o amor um tanto tardiamente e sem ter, ainda, criado os anticorpos necessários para enfrentar as desilusões e frustrações que, não raras vezes, traem uma grande paixão. O universo por onde ele transita, tanto nas caminhadas diárias como nas suas idealizações, parece não ir além do apartamento onde mora, da Faculdade de Música e da casa do maestro que lhe dá aulas de piano.

A personalidade de Paulo Amaro é revelada também no tom do texto, e, semelhante a uma composição musical, a narrativa avança em direção ao clímax. Faccioli opta por um texto sem riscos, visível, em vários trechos, especialmente na seqüência de frases de construção simples: “Vida era uma menina tão meiga (...). Não fez amizades na escola (...). Viera do Rio de Janeiro, o pai transferido (...). Paulo Amaro tampouco era muito (...). Era apenas diferente (...). Jamais necessitou de grandes dedicações (...). Nem chegava a ser alvo de inveja (...).” A repetição de alguns cacoetes narrativos podem ser observados, uns na voz do mesmo narrador (“Senti um frio na barriga”, por exemplo), outros nas duas vozes usadas pelo autor, o que tira o necessário contraste entre ambas: “que surge de inopino”, “que saiu de inopino”, etc... São pequenos senões que não comprometem a qualidade do livro, mas contrastam com a grandiosidade vista em outros trechos. A partir do capítulo 20, por exemplo, quando a história chega ao seu clímax e Faccioli se mostra menos preocupado com os perigos de um texto mais ousado, o leitor é brindado com passagens de bela e raríssima grandeza literária: “Ao me aproximar do portão, ouvi o toque inimitável de Lara exercitando um arpejo. Na obstinada insistência em repetir a frase curta, reconheci o tratamento que eu próprio dispensava a uma passagem, refazendo-a até o limite de considerá-la perfeita.” Ou: “Então já não havia mais como resistir ao que iam juntos tateando e descobrindo, espevitados em alçar vôo num ritmo cada vez mais presto, mais seguro, mais hábil do que eles sequer poderiam ter imaginado, que nesses exercícios todos se pegam sabendo muito mais do que imaginam. O Allegro giocoso encontrou-os esquecidos de tudo, ele, da insegurança antiga, ela, da paixão impossível e da porta que não trancara.”

Estudo das Teclas Pretas é o segundo livro de Luiz Paulo Faccioli, que já publicou Elepê, uma coletânea de contos, pela WS Editora.

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