Fazia-nos falta

A literatura é sempre uma caixinha de surpresas: basta que sobre ela se forme uma convicção para que logo surja o exemplo a colocá-la em xeque, e justamente aí está toda a graça. Se a construção de uma certeza requer anos, às vezes séculos de experiência, o desmonte é súbito. Fala-se aqui de certezas em qualquer gradação de magnitude, desde as regras mais elementares do ofício às questões filosóficas de autoria, alteridade e afins. O grande desafio dos diversos escritores sempre foi o de criar esses rompimentos, preservados a atenção para com o leitor e o respeito à qualidade literária. Difícil exercício, por isso tão raras as subversões bem-sucedidas. Mais fácil é ficar perseguindo o que a experiência já consagrou, até que apareça um inconformado que se arrisque a demonstrar como se pode fazer diferente. A partir daí, tudo muda; depois de se conhecer uma novidade, torna-se impossível ignorá-la para seguir fazendo como sempre se fez e sempre funcionou tão bem.

O Brasil já produziu talentos inovadores, alguns reconhecidos entre os grandes da literatura universal, como Machado e Rosa, para ficarmos na obviedade, outros, não por falta de méritos, ainda restritos ao âmbito nacional. Entretanto, com raras exceções e por menos que o leitor espere em termos de transgressão, há de se convir que a literatura brasileira da atualidade estacionou num patamar bastante conservador, onde poucos têm-se aventurado a uma tentativa de superação condigna.

Neste contexto, é mais do que bem-vinda a aterrissagem em solo brasileiro da portuguesa Inês Pedrosa, a bordo de um instigante Fazes-me falta (Editora Planeta, 2003), romance que já vendeu mais de 60 mil exemplares em sua terra natal. Diante de tal cifra, a edição no Brasil pela recém-chegada Editora Planeta é tímida embora luxuosa: 3.000, impressos em papel pólen e vestidos por uma capa dura, condizente com a presunção da perenidade - justa, pois de fato trata-se de um livro que aportou para fazer carreira.

Um cânone em literatura diz que na robustez de dois pilares - história (conflito) e linguagem - está a sustentação de um romance. Pois bem, a maior virtude de Inês Pedrosa é que ela se dispõe a desafiá-lo. E o faz com serenidade e bom gosto.

Mesmo que não se possa negar a existência de uma história em Fazes-me falta, ela vem tão esfarelada que várias vezes escapa do leitor, exigindo uma profunda atenção no exercício de guardar todos os seus pedacinhos para que se possa ter ao fim um conjunto que faça um mínimo de sentido. A fragmentação é resultado de uma trama construída no diálogo constante e apaixonado que inicia a mulher já morta com o homem que permanece vivo. Muitíssimo aos poucos vai-se descobrindo que a mulher foi professora universitária de História, feminista de capa e espada, e acabou enveredando pela política. O homem, por sua vez, tem um temperamento oposto, além de vinte anos mais velho. O relacionamento começou quando ele, já adentrado na casa dos cinqüenta, resolveu voltar à faculdade na tentativa de compreender as guerras coloniais portuguesas na África. A morte prematura dela desencadeia um fluxo de reminiscências de ambos os lados sobre um amor que nunca se concretizou no plano carnal, mas forte o suficiente para romper a impossibilidade decretada pela extravagante viuvez de um deles.

A interação improvável desses dois mundos tendo o amor como elo é uma idéia que não se pode considerar nova em qualquer das artes, menos ainda em literatura. Pode-se afirmar então, com toda a segurança, que não é a história o ponto forte da obra; poder-se-ia inferir, inclusive, que a aposta numa estrutura assim frágil para uma trama tão pouco original redundaria certamente em naufrágio. Engano.

Fazes-me falta compõe-se de cinqüenta pequenos capítulos duplos, primeiro falando a mulher, depois, o homem, a alternância marcada pelo emprego de duas fontes distintas na impressão. A autora quis que se mantivesse a grafia portuguesa na edição brasileira, o que não acarreta nenhum problema adicional ao nosso leitor. Ao contrário, foi uma decisão acertada à medida que auxilia na originalidade do discurso.

Mas o que realmente Inês Pedrosa nos traz de novo do além-mar é uma força narrativa ainda inédita por estes lados. Que se conheça, ninguém aqui escreve como ela. Além do indescritível prazer que terá o leitor em saborear um texto concebido como se fosse renda de bilro, belo, reflexivo, rico em figuras e outras sutilezas estilísticas, a obra é testemunho do que pode render o investimento bem-feito na linguagem. Pode-se creditar o ineditismo no Brasil de tal concepção, com propriedade, às grandes diferenças culturais que hoje nos separam dos co-irmãos portugueses. A literatura que se faz do outro lado do oceano foi firmemente alicerçada na boa tradição do Velho Mundo muito antes que o vendaval da banalização varresse à vala comum grande parte da produção literária contemporânea. Não que a Europa tenha-se mantido imune ao soprar desses ventos: ser europeu não implica necessariamente ter alma transgressora, pelo menos no que diz respeito à literatura. Mas vários séculos de história além do que tem a nossa pesam bastante, propiciando, estimulando e acabando por referendar a ousadia.

Em Fazes-me falta, ousado é o arrebatamento elegante de uma prosa que anda despudoradamente próxima à poesia de inclinação elegíaca. Ousada, a carga emocional tão intensa que deixa o discurso sempre por um triz do desando. Já no primeiro capítulo, ao dar voz ao homem, a autora anuncia o tom do que está por vir: "Descansa em paz. Fizeste uma morta bonita - mais bonita e serena do que alguma vez foste, cachopa. (...) Talvez fosse melhor não te ter visto, não ter beijado a tua testa. Agarrei-me a essa derradeira nota do teu calor. Ficaste-me com um travo a incenso e flores mortas."

Por fim, a maior ousadia de Inês Pedrosa, num mundo também já contaminado pela necessidade contemporânea de ser veloz, é o exercício da lentidão. Ela não tem pressa nem economiza para dizer o que é preciso, levando o tempo que julga ser preciso, e nesse aspecto emparelha-se a nossa Clarice. Num vagar estudado - convite permanente à reflexão -, os personagens, especialmente os protagonistas, vão ganhando uma excepcional solidez. Além disso, tal andamento propicia a criação de frases lapidares que se sustentam mesmo quando apartadas do contexto original. A mulher, crente da existência divina, abre o romance de forma soberba: "Não basta morrer para conhecer o sorriso de Deus - mesmo que, como foi o meu caso, se tenha vivido abismada nele uma vida inteira". O homem, ateu, contrapõe em outro momento: "A culpa é o que sobra dos enterros - o verdadeiro rosto dos mortos, aquele que alastra, invadindo-nos. Deus é uma conspiração de mortos contra a amnésia dos vivos." Antes, é ela quem anuncia: "A morte é um segredo bem guardado, o único de cujos direitos de autor Ele não prescindiu". E o homem: "É isto o frio: a carícia dos mortos que muito - e quase sempre mal - amamos. Não se consegue amar completamente senão na memória".

Em outra passagem, Inês Pedrosa consegue a síntese perfeita do romance: "Não importa o que se ama. Importa a matéria desse amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor. As palavras são só um princípio - nem sequer o princípio. Porque no amor os princípios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma história que continua para lá dela, antes e depois do sangue breve de uma vida. Tudo serve a essa obsessão de verdade a que chamamos amor. O sujo, a luz, o áspero, o macio, a falha, a persistência".

Parafraseando a jornalista Cláudia Laitano, em recente crônica no jornal Zero Hora, Fazes-me falta é um livro para se ler de lápis em punho, pois é inevitável que se queira sublinhar muitas de suas belas frases.

Apesar de ter as características de uma concepção literária de talhe clássico, Fazes-me falta traz com ele um benfazejo ar de novidade. Não será necessário ao leitor chegar ao fim do volume para reconhecer que, de fato, Inês Pedrosa nos fazia uma enorme falta.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de outubro/2003

Voltar