O tango da ausÍncia

Qualquer coisa que se pretenda dizer como a última palavra sobre o décimo quinto romance de Carlos Heitor Cony, A tarde da sua ausência (Companhia das Letras, 2003) - inclusive esta resenha, que nunca teve tal pretensão -, será apenas isso: a última na seqüência, não a definitiva. A todo momento surge uma nova leitura, um detalhe com o que não se havia antes atinado, mas que acaba por se encaixar perfeitamente bem na condição de outra possibilidade. Não raro o próprio leitor se vê impelido à releitura, se não de tudo, pelo menos de algumas passagens, e não existe virtude maior à matéria literária do que esse poder de fomentar o desejo do retorno ao texto recém-lido.

Sobre o autor, talvez porque dele já se tenha ouvido tudo ou quase isso, podemos concluir com maior segurança. Carioca, 77 anos, jornalista e escritor dos mais respeitados, prêmios literários importantes na bagagem, entre eles quatro Jabutis, prosista em múltiplos gêneros - romance, crônica, literatura infanto-juvenil, conto, ensaio -, imortal na ABL, Cony também traz na biografia o charme de ter-se afastado da ficção por 23 anos, depois do nono romance, e só quebrar o jejum com o excelente Quase memória, de 1995. Seis casamentos, prisões em igual número, todas à época da ditadura, Cony é dos escritores que mais expôs sua vida, fora ou através da ficção.

Ainda se pisa em terreno firme quando se refere um estilo muito peculiar, que nasce do casamento entre a síntese exigida ao bom texto jornalístico e a habilidade em construir pouco a pouco uma história, duas virtudes aparentemente inconciliáveis e que Cony une com destreza. Na esfera da literatura, essa alquimia redunda num discurso limpo, direto, econômico, que envolve o leitor rapidamente, porque desde o primeiro parágrafo o autor demonstra saber muito bem aonde pretende chegar, embora necessite de um romance inteiro para fazê-lo. Com a trama assim armada, Cony exercita então seu talento para compor sutilezas, perícia conquistada na concorrência de um arguto senso de observação, o testemunho privilegiado da passagem dos anos na cena carioca e o exercício cotidiano da escrita.

O leitor assíduo de Carlos Heitor Cony seguramente encontrará em A Tarde... todas as características que sempre e tanto apreciou. Também se deparará agora com algumas excentricidades - sutis, é bem verdade, pois que o autor é refratário a arroubos de qualquer espécie.

Partindo de um episódio tão banal quanto sugestivo - A fotografia antiga de uma reunião familiar misteriosamente recebida pela Internet -, Cony constrói o eixo central da história: a relação mal-ajambrada entre dois cunhados, tendo como pano de fundo a ascensão e decadência de uma família no século passado. A narrativa acontece em três tempos: o presente, nos anos 90, quando chega a foto; os anos 60, época em que ela é tirada; os anos 20, quando começa a saga dessa família. Até aqui, nada de estranho, exceto que, a exemplo do que ocorre no já citado Quase memória, em que o pacote que lhe manda desde o além o pai do narrador nunca é aberto para que se possa ver o que de fato compõe seu conteúdo, em A Tarde... Cony jamais explica a origem da fotografia, e isso, surpreendentemente, não faz a mínima falta. O primeiro dos 63 pequenos capítulos, que descreve a cena fotografada e o momento em que ela é recebida, traz também os elementos todos que serão desenvolvidos adiante. Está tudo ali, nas duas primeiras páginas, mas o leitor só o perceberá numa eventual releitura. Como na montagem às avessas de um quebra-cabeça, o quadro final é proposto no início para depois então ser desmontado, e dessa desconstrução nasce a estranheza.

Antes disso, ao apresentar o volume Cony dá o tom do discurso quando diz que tal família é "tão complicada que parece improvável", e continua: "fui obrigado a recontar fatos, circunstâncias e sentimentos, repeti cenas e situações para que eu próprio acreditasse na perdoável miséria de seus personagens". O leitor, naquele momento, talvez não se dê conta do que exatamente isso quer dizer, nem lembre do esclarecimento quando aborrecidos resumos do que já aconteceu começam a pipocar no meio da história. Por que cargas d'água, afinal, insiste Cony em repetir, ele que tem a concisão como virtude estilística? Quando a repetição passa a ser de capítulos inteiros, a intenção da circularidade vem à tona com toda a força e clareza. E é extravagante essa opção, pois a ênfase obtida, ao contrário do que se pressuporia, recai no vazio das personagens, não existencial mas de substância: elas, de tão ocas, assemelham-se a almas penadas gravitando em torno de uma família que se deteriora.

É justamente por ser uma teia assim multifacetada que várias leituras tornam-se possíveis: a desagregação da família ecoaria na desmontagem do quebra-cabeça; a obsessão que o protagonista masculino nutre pela cunhada reverberaria nas repetições deliberadas; a improbabilidade caricatural da trama e de seus protagonistas alcançaria os versos do tango Cristal, de José Maria Contursi e Mariano Mores, de onde Cony pinçou o título do livro; etc. etc. etc. Especulações apenas, pois o que Cony propõe é o exercício do irreal, do imaterial, da ausência que intitula a obra e que é, em última análise, sua síntese perfeita. (Quanto mais se pretende avançar, mais se volta ao começo: primeiro ao capítulo inicial, depois à apresentação e agora ao próprio título.)

As sutilezas de Carlos Heitor Cony. A fluidez da narrativa só é interrompida quando o leitor se defronta com uma delas. Então ele pode levar alguns minutos pensando e repensando sobre essas pequenas pérolas, de incrível simplicidade e eficácia, que só a grande literatura é capaz de produzir. Às vezes, são versos esquecidos no meio da prosa - "volta e meia passava um cachorro lambendo a poeira da tarde" -, mas é mesmo na construção da prosa que as encontramos em maior número. Falando da personagem que se isolava da família, era avessa a fotos e que, por esse motivo, seria a provável fotógrafa, Cony sai-se com um "desligada de todos, Vera se levantara, apanhara a Rolleyflex não para tirar a foto, mas para sair dela". Magistral. Aprendam com ele os mais jovens, que o diabo não sabe por ser diabo, mas por ser mais velho.

Usando um tango argentino como tempero e fecho de uma história ambientada tan lejos, Carlos Heitor Cony brinda-nos com uma obra más fragil que el cristal em sua despojada beleza, mas forte o suficiente para desde já se perfilar entre os mais importantes lançamentos do ano.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, ediÁ„o de julho/2003

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