Uma valsa em prestissimo

É comum se chamar de linguagem ou narrativa "cinematográfica" o discurso frenético como num bom filme de ação, desses cujas cenas se sucedem com tanta rapidez que não raro tiram o fôlego do espectador. Poucos se lembram de que também é "cinematográfico" o surrealismo irresistível de um Buñuel, a lentidão poética de um Kurosawa, a exuberância alegórica de um Fellini. Mais ingênuo ainda é pensar que tal característica - quando o objetivo agora talvez seja o de testar o condicionamento aeróbico do leitor - possa por si só merecer o status de "virtude literária". Essa ingenuidade chega a ser perdoável nos dias de hoje, quando continuam a surgir textos tão parados que parecem não sair do lugar, e que às vezes não saem mesmo. O fato é que, tanto em cinema como em literatura, há ritmos para todos os gostos, e a grande virtude da obra de arte não está no seu andamento, mas no poder que ela tem de levar o espectador/leitor a lugares nunca antes visitados pela sua emoção. O leitor é, por excelência, um ser ávido de novidade; a Arte terá falhado se não lograr surpreendê-lo.

Valsa Negra (Companhia das Letras, 2003), quinto romance da paulista Patrícia Melo lançado há poucos dias, já teve enaltecida sua narrativa "cinematográfica". Aliás, todos os quatro que o antecedem gozaram de idêntica reverência, em que pese ela esteja mais para Matrix reloaded do que para E la nave va. E não há como o leitor pensar de outra forma ao abrir a edição elegante de um lançamento com o padrão de qualidade da Companhia das Letras, e reconhecer, já no primeiro parágrafo, o ritmo alucinado que se impõe sobre todas as demais características da obra, arrastando-o para uma aventura eletrizante nos bastidores da música erudita. Mais uma vez encontrará a frase seca, veloz como um metralhar contínuo, que já percorreu o submundo do crime, matéria-prima das obras anteriores saídas da mesma pena, e que agora estaciona num paradeiro inusitado. Não era mesmo de se esperar que esse estilo, assumidamente herdado de Rubem Fonseca, mudasse de forma radical ao ser transposto para um universo quase antagônico àqueles já explorados pela autora, ainda que ela declare seu desconforto com a possibilidade de ser enquadrada em um estilo. (Como é inexorável que esse indesejado estilo exista e seja referido, o que Patrícia talvez queira dizer é que ela espera do leitor um pouco mais do que a óbvia constatação da velocidade surpreendente da sua narrativa e que ele atente para suas outras peculiaridades. Também é com esse objetivo que se constrói esta matéria.)

Sabe-se muito bem que o enredo não é o elemento mais importante da obra literária. Muitas histórias excelentes se perdem por mãos inábeis, assim como argumentos aparentemente fracos podem render livros excepcionais. A história que Patrícia propõe situa-se num meio-termo. Um famoso regente brasileiro, do qual não se conhece o nome, divorciado e pai de uma adolescente, tem no segundo casamento uma relação conflituosa com Marie, violinista de origem judia, rica, trinta anos mais jovem. O ciúme do protagonista, que vai assumindo dimensões patológicas, é o fio condutor da narrativa. A ótima intenção de Patrícia é fazer dos personagens de um mundo pretensamente glamoroso pessoas de carne e osso, também angustiadas, também frustradas, às vezes patéticas. Para tanto, ela faz o seu maestro gostar de futebol, mas o compõe desbocado como um jogador de várzea. Autocentrado, não tem amigos, julga não conhecer a própria filha, vive às turras com seus músicos e humilha a nova mulher durante um ensaio do que considera "sua orquestra". Em suma, um ser detestável sob qualquer ângulo.

A epígrafe colhida de Catulo - "o ódio é indistinguível do amor" - talvez reflita, mais do que a degeneração afetiva do protagonista, a própria relação de Patrícia com seus personagens. Com raras exceções, são criaturas estereotipadas, das quais ela mostra sempre o pior lado possível, como se, apontando apenas a sua miséria, quisesse puni-los. Ou como se, por conseqüência de uma profunda descrença neles todos, ela os desprezasse solenemente. É bem verdade que, nesse romance, o olhar sobre os demais personagens partiria do maestro - narrador em primeira pessoa -, não necessariamente da autora, se a situação fosse inédita em sua obra. Não é o caso.

Ainda que também seja um grande estereótipo (o do regente temperamental e facilmente irascível), o maestro é de longe o personagem melhor construído, e a história só se sustenta até a última página porque é conduzida por ele. De uma certa maneira, o fato de o ciúme atingir o grau de doença acaba disfarçando algumas das imperfeições da obra, notadamente os clichês em que são metidos todos os que se envolvem com o protagonista. Ora, se o olhar é oblíquo e parte de um narrador doente, é natural que se atribuam os clichês à observação intencionalmente deturpada, não a uma eventual imperícia do escritor. A dúvida pode assaltar um leitor mais experiente, mas isso não chega a comprometer.

O que interfere e prejudica é o tema de casa feito com demasiado zelo. Fica patente, desde os primeiros parágrafos, que Patrícia Melo não tem grande familiaridade com a música erudita. Pode ser que a ouça, aprecie, que tenha inclusive um gosto apurado, mas desconhece as entranhas do mundo que pretende narrar. Para suprir a deficiência, como boa profissional que é, foi à luta, pesquisou, conversou com amigos músicos. Tanto se empenhou para uma caracterização convincente que acabou recheando o romance com citações que, se raras vezes deixam de ser plausíveis, soam quase sempre como referências enciclopédicas, pouco ou nada colaborando na construção da personalidade musical do maestro ou na ambientação da trama. Ninguém considera que seja fácil compor uma história num universo tão complexo quanto desconhecido pela maioria dos mortais. Entretanto, enumerar conceitos, informações ou mesmo algumas bizarrices do meio não garante verossimilhança. Se, por exemplo, Patrícia tivesse abandonado por instantes a concisão característica e gasto algumas linhas para explicar por que o maestro julga Bruckner um "caipira" ou um "coito interrupto", depois de ter feito à queima-roupa afirmações dessa magnitude, o resultado talvez não corresse o risco de soar artificial como a prima-dona que decidisse cantar bossa nova com impostação operística. Em outra passagem, o maestro sai com um "pensei em Noites num jardim de Espanha, para piano e orquestra". Ora, a instrumentação escolhida por De Falla para uma de suas peças mais famosas caberia muito bem na capa do disco ou no programa do concerto, não na imaginação deleitosa de um músico tarimbado, tão íntimo da obra que consegue lembrá-la ao viver um raro momento de bem-estar e felicidade. Quanto às incorreções, vale citar o anunciado encontro do maestro com uma figura impossível: o "chefe do naipe dos contrabaixos". Talvez um leigo em música não ache nenhum problema nessa qualificação estapafúrdia, mas o conjunto de contrabaixos nunca forma um naipe de instrumentos; são eles parte integrante do naipe das cordas e não têm "chefe"; pode, no máximo, existir na orquestra um "primeiro contrabaixo". Mesmo que se admita serem apenas detalhes, em se tratando de literatura eles fazem uma enorme diferença.

O judaísmo é outro elemento importante na concepção do romance e Patrícia Melo o aborda em dois aspectos principais: a relação da abastada comunidade judaica de São Paulo com seus agregados não-judeus e a eterna crise no Oriente Médio. Na primeira abordagem, Patrícia se sai bem. A visão do maestro sobre a família de Marie é mal-humorada mas consistente, e dispensa - coisa rara na literatura de autoria gói (não-judia) - a opção fácil por um lado mais folclórico, muitas vezes cômico, desse grupo. Único - e grave - reparo a fazer: tanto nos Jardins paulistas quanto no bairro do Bom Retiro, via de regra não se fala hebraico, como chega a explicar o narrador. Vêm do iídiche, um dialeto originário basicamente do alemão e falado pelos judeus da diáspora, as expressões usadas e traduzidas no livro. Por outro lado, o conflito judaico-palestino é a toda hora citado por conta da obsessão do maestro pelos noticiários televisivos e da freqüência com que eles registram os atentados cotidianos naquela parte do mundo. Repetições são naturalmente aborrecidas, mas se a real intenção de Patrícia era criar com elas uma metalinguagem a acentuar a banalização do problema através dessa recorrência ou a irritação do maestro toda vez que ele se depara com tais notícias, a autora pode se considerar bem-sucedida.

Com um andamento tão presto e vigoroso, o leitor se deixa conduzir sem resistência, e muitas vezes não nota que falta ao discurso o toque da sutileza, da ourivesaria do detalhe, algo que o seduza mais pela reflexão, menos pela ação. Em todo o romance, uma única e solitária frase, "os suicidas formam a classe artística do mundo das patologias", talvez pudesse cumprir esse papel, tão caro à boa literatura. Perdida em meio ao tiroteio, ela se reduz a mera frase de efeito. E não havia mesmo como ser diferente: assim como não se aprende música de uma hora para outra, também a carpintaria do texto é algo demorado, paciente, por vezes doloroso. Nada, enfim, que tenha qualquer afinidade com um caráter "cinematográfico".

Se Patrícia Melo escrevesse música, bastaria ralentar um pouco o ritmo e trabalhar melhor os acordes, para que a inventiva melodia fizesse dessa Valsa Negra uma peça ineludível.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de setembro/2003

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