Um Estudo em Branco

Dia de eleições municipais. A chuva torrentosa varre a capital do país e parece ter afastado os cidadãos do seu dever cívico mais importante neste dia: eles vêm hoje a conta-gotas, numa intensidade inversamente proporcional à das águas, prenunciando um índice de abstenção nunca antes registrado. Assim começa o recém-lançado Ensaio sobre a Lucidez (Companhia das Letras, 328 páginas, R$ 39,50), romance do Nobel de Literatura José Saramago. Às quatro da tarde, já abrandados os humores do tempo, os eleitores começam a acorrer em massa às urnas, formando longas filas e retardando em algumas horas o término previsto da votação. Ao final do escrutínio, passada a meia-noite, a grande surpresa: mais de 70% dos votos estão imaculadamente brancos. O governo, em polvorosa, convoca novas eleições para o domingo seguinte, que amanhece então exuberante de sol e de bons augúrios, os votantes todos comparecem regularmente às mesas, e os mandatários do país começam a respirar o alívio da normalidade. Mas a incidência de votos em branco bate agora a estrondosa cifra de 83%. O governo do p.d.d. (partido da direita) julga ter se instalado na capital uma força conspiratória contra a democracia e mete-se em toda a sorte de trapalhada para debelar a crise política decorrente, seja transferindo a sede do governo para outra cidade, seja declarando o estado de sítio na ex-capital, seja forjando um atentado terrorista na tentativa de mostrar ao povo as conseqüências daquele resultado eleitoral tão anômalo quanto inexplicável, sobretudo nefasto à ordem democrática. Enquanto isso, a vida na cidade transcorre em paz e dentro da lei, a única violência é a provocada pelos movimentos do governo autoritário e corrupto - de direita, saliente-se - contra uma população ordeira e sensata, em tudo diferente daquilo o que crêem seus representantes.

O argumento, apesar do anacronismo da classificação partidária repetida por Saramago, comunista pertinaz, é promissor. O cenário, não outro que a metrópole anônima do estupendo Ensaio sobre a Cegueira, de 1995, com o qual a nova obra dialoga: em dado momento, quando inclusive acontece a grande reviravolta da trama, uma carta escrita às autoridades traz à tona o episódio, acontecido há quatro anos, da cegueira generalizada que acometeu a mesma cidade e lança a suspeita de que uma mulher, única poupada àquela época da epidemia temporária, esteja agora por trás dos "brancosos". A partir desse ponto, o que era antes uma sátira bem-humorada, envereda-se por uma espécie de thriller policial de caráter ora tragicômico, ora panfletário, mas substancialmente diverso da construção inicial.

Para o leitor que se aventura pela primeira vez no texto do português José Saramago, o essencial do seu inimitável estilo estará todo nesse novo Ensaio: os longuíssimos parágrafos, densos, escarpados e sinuosos como os fiordes noruegueses, a confusão provocada pelos freqüentes diálogos incrustados no meio deles e abertos apenas por uma vírgula e uma letra maiúscula, a elegância caudalosa do ritmo, a ironia finíssima, a extravagância de permitir brotarem expressões coloquiais, não raro chulas, em meio ao léxico erudito. Quem, ao contrário, já estiver familiarizado com sua obra anterior, sentirá falta das descrições magistrais - como a da cena da Paixão que abre O Evangelho Segundo Jesus Cristo -, da coerência e unidade que conduzem todo o já citado Ensaio sobre a Cegueira, da bem urdida fábula moderna de A Caverna. Perceberá, também, que a repetição de uma velha fórmula, sem o acréscimo de algo que lhe dê um viço de novidade, e colocando no acento ideológico mais força do que põe na preocupação literária, pode vir a constranger o autor de uma obra original e de belíssimo timbre.

TRECHO:

"Também não viria a ter qualquer influência favorável no balanço quotidiano do deve e haver económico, irremediavelmente em maré baixa, a busca e a exibição de Intimidades pouco asseadas, de escândalos e vergonhas de toda a espécie, a velha roda de virtudes públicas mascarando os vícios privados, o carrocel festivo dos vícios privados arvorados em virtudes públicas a que até há pouco tempo nunca haviam faltado não só os espectadores, como os candidatos a dar duas voltinhas. Realmente, parecia que a maior parte dos habitantes da capital estavam decididos a mudar de vida, de gostos e de estilo. O grande equívoco deles, como a partir de agora se começará a ver melhor, foi terem votado em branco. Já que tinham querido limpeza, iriam tê-la.".


Luiz Paulo Faccioli

Publicado no Segundo Caderno, Zero Hora, 29/03/2004 e Variedades, Diário Catarinense, 30/03/2004

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