Chuva de bichos

Não existe gênero mais decantado. Nem mais agredido por invencionices, uma vez convencionado que será conto aquilo que o autor disser que é. Desde então, há sempre um gracioso querendo reinventar a roda, e o resultado não costuma passar disso: caricatura da boa e circular forma, testada e aprovada nos muitos anos de experiência. Reforçando certas ambições (e destruindo outras), o inovador tem ganas do consagrado e dele tenta se esquivar por qualquer via, por mais torta que seja.

Altair Martins sabe, como poucos, do que se fala aqui. Mesmo assim, arrisca-se. Para o professor de Literatura Brasileira, nascido em Porto Alegre há 32 anos, o molde canônico parece insuficiente para conter o vigor criativo, saciar a sede do novo. Em sE cHOVEREM pÁSSAROS, (WS Editor, 2002) aprofunda uma concepção que inaugurou em Como se moesse ferro, sua primeira antologia, e repetiu em dENTRO dO oLHO dENTRO, livro de um só conto. Vale-se, agora mais que nunca, de tudo que estiver à mão para compor a estranheza: minúsculas trocadas por maiúsculas e vice-versa, a vírgula acintosa no fim do título, o vazio entre colchetes nomeando a personagem, a construção caótica, os dois pontos substituindo os pontos finais (interessante sugestão de encadeamento e infinitude), a disposição gráfica heterodoxa, o neologismo e a aproximação com a oralidade ("guspir" talvez seja melhor que "cuspir"), enfim, um arsenal de grosso calibre mas ainda insuficiente à sustentação de um discurso.

Em Altair - pasma-se o leitor - o sustentáculo consegue vir um pouco antes da trama. Ele sabe arar, também como poucos, o delicado e difícil terreno das sensações e dos sentidos. Águas e bichos é o que propõe como recorrência; pois bem, água verte por todos os poros do texto, enquanto bichos se humanizam e homens se bestificam: o enjôo da grávida ao imaginar que bebeu cobras, o cão de guarda transformado em filho, o motorista que apaga o cigarro na mão da criança esmoleira. A tessitura incomum está bem resumida no título - que, por si só, já renderia um ensaio. Mas Altair não é escritor de resumos. Antes, seu texto flerta com o caudaloso, o exagerado, um desafio à concisão exigida do gênero. Envereda pela poesia e inspira-se na pintura. Se Dalí sugeriu um belíssimo conto no primeiro livro, agora Portinari dá as tintas de um magistral iRA dAS mÃES que, junto com sOL nA cHUVA à nOITE, responde pelos melhores momentos da coletânea. E mesmo que os dois fossem despidos do aparato e narrados na mais ortodoxa das formas, ainda assim teriam assegurado seu lugar de honra em qualquer antologia: as histórias talvez se tornassem até mais eloqüentes na nudez.

Já que se falou em artes plásticas, uma comparação possível: Hieronymus Bosch, o mestre flamengo que antecipa o surrealismo em quatro séculos. Ousado, profético, incontido, amálgama de velho e novo, o conjunto em Bosch é bem menos instigante que o detalhe. Talvez esteja aí a chave para se compreender por que Altair Martins, ganhador de tantos prêmios importantes (entre eles, dois Guimarães Rosa da RFI), não goza dessa unanimidade junto à crítica: os contos, isoladamente, causam mais impacto que sua reunião. Altair não dá refresco ao leitor nem veio para brincar.

Se a roda talvez continue sendo a melhor solução, Altair nos mostra que, pelo menos, ela já não é mais a única possibilidade.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de novembro/2002

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