Irreversível inferno

Simplicidade. Eis aí uma abstração que todos compreendem. No entanto, em se tratando de literatura, como é difícil alcançá-la. Por trás do simples - e isso vale para qualquer das artes -, existe sempre uma insuspeita sofisticação, um esforço criativo que poucos conseguem exercitar com eficiência. Poucos também são os leitores aptos a reconhecer esse trabalho. E ele não deve mesmo ser percebido. (Flaubert dizia que o bom texto literário é aquele que não tem autor, ou seja, mesmo o artífice deve ficar escondido no processo de deixar visível somente o que importa. Mas essa já é uma outra história.) Evidentemente, além do suor, a intuição do autor pode ajudá-lo, assim como a leitura sistemática, e os clássicos estão aí, entre outras coisas, também para mostrar o caminho da solidez, do perene, em contraposição ao muito que sempre sobra, justamente por ser descartável. Neste sentido, simplicidade pode ser traduzida por essencialidade, ou seja, o texto limpo de tudo o que não for história. Um exemplo mais do que óbvio é a adjetivação. Usados com parcimônia, os adjetivos são o tempero e, como tal, indispensáveis à literatura. Entretanto, assim como um bom prato não pode prescindir do ingrediente principal, o leitor percebe de pronto quando existe no texto mais tempero do que substância.

Incluem-se na simplicidade a forma, o léxico escolhido pelo autor, mas também a temática e o ponto de vista. Olhar com outros olhos, iluminar o que está na sombra, dar voz ao silente, traduzindo isso tudo para o leitor com economia de recursos, é o grande desafio do bom ficcionista, principalmente quando o que ele está pretendendo é o conto, gênero nobilíssimo. O conto está para a literatura assim como a corrida de 100 metros está para o atletismo: o êxito, em ambos os casos, se define no detalhe mínimo, e não há espaço para desperdício.

O sergipano Antonio Carlos Viana conhece como poucos o tema que se esboça aqui. Mestre em teoria literária pela PUC/RS e doutor em literatura comparada pela Universidade de Nice, ele não só está credenciado a dar aula sobre o que se disse até agora, como nos oferece, com o recém-lançado Aberto está o inferno, uma fonte admirável de exemplos. Em seu primeiro livro inédito após onze anos - antes dele, três coletâneas e uma antologia -, Viana apresenta 33 contos curtos, narrados com competência e valorizados numa bela edição da Companhia das Letras, que traz capa assinada por Angelo Venosa sobre um óleo de Jorge Guinle, The last time I saw Paris. É um lançamento importante, e espera-se que ele sirva também para aproximar novos leitores de um dos bons talentos surgidos na safra de 1970 e que se consolida a cada novo livro, ainda que, infelizmente, continue desconhecido do grande público.

Viana autodefine-se como contista, o que poderia facilmente ser tomado por auto-elogio, quando se pensa na já citada nobreza do gênero; poderia, em contrapartida, sugerir uma especificidade restritiva dentro do atributo maior, o de ser escritor. Nem uma coisa nem outra. No caso de Viana, é tão-somente uma definição precisa: ele domina o conto, com tudo o que implica a singeleza desta afirmação.

Sob qualquer ângulo que se comece a analisar a obra, a noção de simplicidade aparecerá de imediato. Em primeiro lugar, salta aos olhos um velho conceito, tantas vezes negligenciado por alguns autores mais afoitos: o conto nada mais é do que a narração de uma história, um causo, um acontecido e, como tal, deve seguir um inexorável fluxo de início, desenvolvimento e fim, sob pena de dispersar a atenção, levando com ela o interesse do leitor. Os contos de Viana primam por essa desejável ortodoxia e se mantêm atraentes na medida em que as histórias são originais na sua essência, além de muito bem construídas, portanto dispensam extravagâncias ou malabarismos formais. O universo retratado é eclético ao ponto de abranger os miseráveis do sertão nordestino e também a classe média que consegue ainda se dar ao luxo de fazer turismo no exterior ou estudar em Paris. E mesmo na mais glamourosa das cidades, não existe glamour algum nas situações criadas por Viana; ao contrário, o miserê humano é o que está sempre em foco.

A linguagem espelha rigorosamente o ambiente e o modo de vida dos personagens. Ela beira o coloquial, é crua, não se perde em filigranas mas busca sempre ser direta, exata. Simples, em outras palavras. Não evita um léxico chulo, por necessário, enquanto se mantém a uma distância segura do escatológico ou do hiper-realista. Outras vezes, quase que por descuido, invade o território da delicadeza, como em Mulher sentada, na apresentação da protagonista:

"Com o tempo, os objetos foram se afastando enevoados, e deles restaram apenas os contornos e a necessidade de lentes cada vez mais grossas. E vieram os muitos óculos que foram se substituindo diante dos chefes sempre novos. Guardara todos, cada um na sua caixinha e com uma história. Desde os de armação tão sinistra até os mais modernos, de uma tal leveza que às vezes pensava estar sem eles. E os anos sombriamente vividos iam dar agora em sua mesa de secretária correta."

No entanto, o tom predominante é o da crueza: a palavra firme e fria que não vacila em sua exatidão, o que responde em grande parte pelo vigor do texto. Isto não impede que ele seja dotado de uma exemplar leveza. Como bem pontuou o escritor e professor Flávio Carneiro, em recente matéria sobre a obra (JB Online), "não é fácil encontrar na literatura essa rica combinação de exatidão e leveza, sobretudo numa época em que leveza se confunde com pieguice e exatidão com retratos que se pretendem mais reais do que a própria realidade". Entenda-se por leveza, neste contexto, a "subtração do peso" preconizada por Italo Calvino e referida por Carneiro: o exercício de retirar "o peso das figuras humanas, dos corpos celestes, das cidades e, sobretudo, da própria linguagem". Ou seja, nada além do que selecionar o essencial e restringir-se a ele.

Mesmo com a auto-imposta economia de elementos, Aberto está o inferno apresenta um conjunto rico e multifacetado de personagens. Do adolescente que vai ao bordel perder a virgindade ao idoso que se submete a uma sessão de "cura prânica", da adolescente que se entrega ao forasteiro com a promessa do supremo luxo de ter uma latrina à juíza obcecada pelos cuidados com a própria pele que se descobre vítima da passagem desastrosa do tempo, Viana faz desfilar uma galeria de tipos curiosos, seres ora humanizados ora brutalizados pela aspereza de um desgraçado cotidiano, que conseguem sobreviver a ele à custa de pequenas conquistas pessoais, nunca indolores e sempre transformadoras. Não se espera do conto - como de resto da literatura em geral - um objetivo diferente: a importância do relato é sempre diretamente proporcional à transformação que ele consegue operar em seus protagonistas.

Vários dos personagens são adolescentes; as peripécias vividas por eles e o natural assombramento frente às suas descobertas são recorrentes em toda a coletânea. O sexo tem uma participação importante. Viana trata-o com naturalidade, sem contudo dispensar o erotismo farto em algumas passagens, notadamente em As meninas do coronel, a história de um todo-poderoso viúvo do sertão que se excita depilando as meninas do prostíbulo:

"E lá vinha lambe-lambe, língua mole viscorenta, pedindo que a menina se conservasse quieta, como se fosse possível deixar de se contorcer. Aos poucos, aos pouquinhos, os dedões de cada lado da pomba bem depenada, escancelavam com gosto, o repinicar da língua na flor de açucena aflita, o roxo se transformando no vermelho luminoso da romã recém-aberta, a quentura almiscarada que ele sorvia lento, seu mel de arapuá, 'é hoje que me acabo', sem paletó, sem camisa, o anum se desfazendo de sua plumagem negra, mostrando o branco do peito, 'paciência, viu, filhinha', afastando a mão afoita que tateava nas calças em busca do escondido."

A ironia, aliada a uma espécie de humor minimalista e corrosivo, manifesta-se em todas as histórias, e não teria mesmo como evitá-la. Na realidade, Viana explora o irônico de cada situação simplesmente expondo ao leitor o quão absurda pode se tornar a miséria humana e o quão talentoso é o homem em lidar com ela. A dor sempre responde pela tensão dos relatos. Viana chega a ser cruel nas cores com que retrata as agruras dos personagens, que muitas vezes não se apercebem de sua verdadeira extensão e complexidade, ao tempo que lhes devota um olhar sensível, cúmplice, de quase afeto. É que, ao escancarar esse inferno que intitula a obra, Viana mostra também que o ser humano, pelo menos o que aparece em suas histórias, está mesmo fadado a viver e morrer nele, e não existe nunca um fato libertador, um alento, uma esperança além do que lhe proporciona o aprendizado sofrido e diário. "Aprenda a conviver com a tragédia e trate de ser feliz apesar dela" é o que Viana parece soprar ao pé do ouvido desses seres maltratados.

Com segurança e perspicácia, Viana constrói um instigante painel de tipos e causos. Atendo-se aos preceitos tradicionais do gênero, mostra-nos por que o conto mantém sua posição de destaque na literatura e dela não se afasta tão cedo, pelo menos enquanto existir um autor disposto a tratá-lo com dignidade e respeito. Simples assim.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de novembro/2004

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