Elegância desatinada

Enquanto alguns autores teimam em ignorar a simplicidade perfeita da máxima à que já se renderam os melhores - o bom conto nada mais é do que uma história bem contada -, outros descobrem que contista habilidoso também é o que pega o leitor pela mão e o leva a conhecer situações inusitadas, encantando-o com a novidade, mesmo que a história não faça lá muito sentido. Descobrem, noutras palavras, que a história em si não tem a mesma relevância da forma buscada para narrá-la. Aqui encontramos Leonardo Brasiliense em seu Des(a)tino (Editora Sulina, 2002).

Segunda obra ficcional do gaúcho de São Gabriel, nela Brasiliense amplia a estética já anunciada nos contos e minicontos de Meu sonho acaba tarde, de 2000, narrando uma mescla de realidade e onirismo com a letra firme de quem sabe polir o discurso até chegar ao essencial. E o essencial, nesse caso, é um universo esquisitíssimo.

Apesar do texto elegante e do apuro nas construções, não é uma leitura fácil. O leitor embarca num texto claro e simples: "Vinha pela calçada quando, sem querer, tropecei numa vassoura e bati a cabeça na borda de uma lata de lixo. (...) me desacordei. Juntou-se até a infalível platéia, absorta na quebra de sua vida cotidiana e sem graça. Levantei (...) e logo percebi que minha existência toda estava mudada." Com a queda, o narrador de Os nomes - primeiro de um conjunto de seis - descobre ter adquirido a inexplicável capacidade de modificar a existência ao seu bel-prazer. A partir daí, tudo se complica. O que, a princípio, nos remeteu ao Sul, logo se transfigura num sumário da intenção do autor: enquanto o realismo cria um universo verossímil a partir do insólito e nele constrói a narrativa, Brasiliense se propõe a causar desconcerto fazendo cruzar insistentemente os fluxos de um real e de um imaginário, de tal sorte que o leitor desaprende rápido a distinguir onde acaba um, onde começa o outro. "(...) a concretude me enfastiara há muito, o que nunca falta é a cena de alguém a tropeçar numa vassoura e bater a cabeça, porque, sem isso, tudo acaba, fico preso a um existir, e morro", segue o narrador, cantando a letra do que ainda está por vir.

Brasiliense maneja com segurança aquilo que Valesca de Assis define, na apresentação do volume, como o "reverso das coisas" ou "uma escritura urdida ao avesso". Enquanto isso, os dois melhores contos, Os funcionários de seu Mercês e João Jiló, herói de ninguém, vão realizando, enfim, o que sempre se espera de uma boa história: o desfecho surpreendente vem pôr ordem no caos e explicar toda a estranheza que insistiu em fustigar o leitor por páginas a fora.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de novembro/2002

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