Literatura de salto alto. E por que não?

Quando Cine Odeon (Editora Record, 2001) me caiu nas mãos, há quase um ano, a nostalgia do título, a capa inspirada nos anos 60, meio Lichtenstein, meio Betty Boop, e - acima de tudo - uma recomendação vinda de boa fonte despertaram-me a curiosidade. Desde então, ele ocupa um lugar importante atrás da cabeceira da cama, amontoado a alguns outros que tenho urgência de ler e não consigo, e ali espera pacientemente por sua vez. Assim, além de umas três ou quatro dessas páginas, nunca antes eu havia lido Livia Garcia-Roza. Solo Feminino (Record, 2002) surgiu com uma perspectiva de redenção desse desconhecimento. Afinal, trata-se do quinto romance da escritora e psicanalista carioca. Foi então com avidez que comecei a leitura, e, vencidas as quarenta primeiras páginas, o preconceito me obrigou a uma parada estratégica.

Desde há muito que acompanho escritoras reunidas em debates, sempre muito pouco à vontade, sob o pretexto de discutir literatura feminina. E, invariavelmente, concluem que a literatura não tem sexo, e o que pode existir de fato é uma literatura com temática feminina. Pois bem, Solo Feminino parecia contrariar a unanimidade das autoras, impondo-se como um raro espécime daquilo cuja existência elas não querem reconhecer. Havia ali um cheiro de literatura de mulher (ou, na referência pejorativa, de um livro de mulherzinha), algo que não me parecia ser possível a um homem escrever, muito menos a um homem agradar. E lá o que poderia me interessar as frustrações amorosas de uma Gilda tão "moderninha" quanto rasa, 26 anos, no Rio de Janeiro do século 21?

Mas Livia, astutamente, já havia preparado sua armadilha de capturar leitores incautos. Enquanto eu ainda especulava sobre os motivos que teriam tão rapidamente levado ao esgotamento conflitos que, até bem pouco tempo, teriam rendido boa literatura, a curiosidade pelo desenrolar da trama me fez retomá-la. Assim foi como descobri a primeira virtude da escritora: ela sabe contar uma história, fomentando o interesse do leitor, o que não pouco nestes tempos bicudos de experimentalismos e pós-modernices. (Seria impossível fazer aqui uma resenha de Solo Feminino sem tirar do leitor o privilégio de ele próprio desvendá-lo.) De volta à leitura, foram aparecendo outras boas surpresas. A construção das personagens, notadamente as femininas, é primorosa. A idéia que se tem ao final é a de que a autora já era íntima delas ao começar a narrativa, o que lhe permitiu conduzi-las com verossimilhança pelas situações mais inusitadas. Permitiu, também, o uso de um recurso peculiar: o leitor não raro tropeça em estranhezas que só vão ser esclarecidas várias páginas (ou vários capítulos) depois. É o caso das expressões em espanhol, que começam tímidas já no primeiro capítulo, ganham corpo à medida em que avança a história, e só são justificadas na metade do livro. Há também algumas estranhezas que não se resolvem, mas acabam se justificando, pois, como bem pontua Maria Rita Kehl na apresentação de Cine Odeon, além da pergunta característica de toda a narrativa - "o que vai acontecer depois" -, o leitor vai ser instigado várias vezes a se perguntar "o que é mesmo que está acontecendo aqui".

Livia Garcia-Roza apresenta-nos um discurso limpo, moderno, econômico, quase um coloquial que passou pelo esmeril da boa escrita. Se a espontaneidade garante o ritmo ágil do texto, peca às vezes por prescindir de uma lapidação mais cuidadosa. É a única explicação que encontro para as duas "a minha pessoa", preferidas ao simples e mais correto "a mim". Pecados menores, enfim, quando a obra consegue cumprir o papel maior de levar essa inexistente literatura feminina ao seu lugar devido: o da boa literatura.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado no caderno Cultura, Zero Hora, 07/09/2002

Voltar